«Tenho quatro pennas de ave em exercicio de escriptura, uma é negra, e escrevo o «Impassivel» com esta: no dia nove escrevi com as quatro pennas; duas estavam já refugadas, duas eram novas, duas appareceram a um canto: eu já mandei procurar mais pennas mas não apparecem á venda: escrevo, com dous vintens d'estas pennas ha mais de quatro mezes, e com dous vintens de tinta ha mais de meio anno, e quebrou o vidro, aliás seria como a panella inexhaurivel de Elias: o resto da tinta está em um pires de porcelana que serve de tinteiro; eu só tenho dous pires, e duas chavenas.
«No tempo da usurpação de D. Miguel uma senhora chamada Rosa deu-me a effigie do tyranno, eu dei-a em Villa Pouca a um homem affeiçoado á tyrannia; o marquez de Lavradio deu-me uma veronica da Santissima Virgem Immaculada em Lisboa no anno de mil oitocentos e cincoenta e cinco, eu dei-a em Villa Pouca a uma senhora chamada Rosa.
«Visitei em Bemfica, como deputado da universidade de Coimbra, a supposta infanta D. Isabel Maria, a qual não me pagou a visita; uma irmã de Eiris visitou-me em Villa Pouca, eu fui a Eiris, e não a visitei.
«Fiz algumas visitas á supposta imperatriz do Brazil, falsa duqueza de Bragança a rogo e instancias de varios mordomos ou agentes da sua casa; a cruel jámais ousou levantar os olhos para nós: quem pagará ou satisfará estas dividas de amor e de reverencia?
«Depois que estou em Chaves vi duas raposas mortas, uma femea em Santa Maria Magdalena, um macho em Santo Amaro; tenho duas vassouras, fui servido desde o anno de mil oitocentos e sessenta por duas criadas mulatas, uma em Villa Pouca, irmã do burro cruel, outra nos banhos do lugar de Carção ou de Arcozelo: fui servido por duas criadas filhas da viuva, uma de Montenegrelo, outra de Chaves, aquella deu-me um guarda-chuva para a jornada que eu dei a esta, e dei um lenço de sêda á criada de Montenegrelo: já bati em duas, uma fugiu e não levou.
«Hontem veio o homem do leite no momento em que eu acabava a oração da manhã: hoje repetiu o mesmo mysterio.
«José Joaquim dos Reis, juiz de direito de Lisboa, condemnou a dez annos de degredo um energumeno que dizia missa e prégava sem ter ordens, e denunciou-me a simonia que o abominavel patriarcha Guilherme commetteu em Roma: n'aquelle tempo não havia em Lisboa prelado legitimo; eu argui o antipapa, e declarei energumenos todos os seus tonsurados: o falso padre gerou todos os actuaes, mas a sua sorte ha de ser diversa: os herejes amnistiaram o nefando, não podem absolver os traficantes.
«O perfido Cassiomano fallou-me cinco vezes, duas nas Necessidades, e uma em Mafra, são dous paços reaes, outra no paço das escolas, da universidade são dous paços de escolas: porque Mafra é escola militar: esteve commigo duas vezes na academia de Lisboa, no collegio dos Nobres, e no convento da academia, são duas academias, ou mais: uma em Coimbra outra em Lisboa, uma nos Nobres, outra no convento da academia das sciencias, duas de ensino, e duas normaes: porque o militar goza d'esta categoria em relação ás escólas do exercito, duas em Lisboa e duas fóra de Lisboa.
«São cinco e seis vezes: porque eu fallei uma vez ao monstro nos paços da universidade como provedor da misericórdia; elle mandou-me um recado á misericordia de Chaves pelo Antunes e pelo provedor.
«O dualismo é uma graça; a perfidia é uma abominação e um horror.»