«Não duvido, que se me accuse de ignorante, e de indifferente, ou de não saber ensinar, senão aos homens; senão mostrára zelo, e attenção para a instrucção do bello sexo: ellas, que são a alma da dança, e que lhe dão todo o brilhante, que ella tem; e parece que a natureza a reveste de mais graça; porque sem a presença das senhoras a dança não está tão animada; são ellas as que fazem nascer este ardor, e nobre emulação, que se encontra entre ellas, e em nós, quando dançamos ambos, principalmente com aquellas, que executam bem este nobre exercicio; nada me parece mais agradavel em uma companhia, que de vêr dançar duas pessoas de um e outro sexo com seriedade; que de applausos, e que de gostos para os circumstantes.
«Independentemente do que se tem dito em os capitulos precedentes, que tóco igualmente a um, e a outro sexo? as mesmas reflexões são necessarias para as senhoras, ellas devem voltar os pés para fóra, estender os joelhos, ainda que muitas pessoas pretendem, que não se lhes conheçam estes defeitos, mas por tirar este engano, principalmente para as senhoras moças, que por desmazelo, ou pouca curiosidade o não façam; não quero senão o seu proprio voto, que se ponham diante de um espelho de vestir, e que ellas andem alguns passos, observando o modo de bem andar, que está escripto para os homens, e se encontrarão com outro ar, e conhecerão, que de ter a cabeça direita, o corpo fica com maior firmeza, e os joelhos estendidos, os passos são mais seguros; tenho feito uma reflexão, que me parece muito justa sobre o modo de saber levar bem a cabeça, e é que uma senhora por muito engraçada, que seja em seu modo de levar a cabeça, fará julgar differentemente de si, v. g. se ella a levar direita, o corpo bem posto, sem affectação se dirá; eis aqui uma senhora, que tem um ar muito nobre; e se se deixa ir com negligencia, se lhe chamará preguiçosa; se a deixa cahir para diante; bizonha, e se a leva muito baixa, de pensativa, e de vergonhosa; e outras muitas cousas, que não escrevo por não ser proluxo: desejo que todas as senhoras não façam o modo facil, que se vem descrever, para que não cáiam em nenhum dos defeitos, que tenho recitado.
«Para bem andar é preciso ter a cabeça direita, os hombros baixos, os braços retirados para traz, acompanhando bem o corpo; mas dobradas, as suas mãos uma em cima da outra, com um leque na mão, e principalmente sem affectação.»
Não escrevia em estylo apocalyptico.
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Este francez que tanto polira e lapidára o bruto diamante das damas lisbonenses da côrte de D. José I, tinha uma filha esbeltissima, engraçada de todos os amavios francezes, e muito esquiva aos amores dos discipulos de seu pai, até á hora fatal em que o pé, n'um difficil passo de minuete com o deus frecheiro, lhe escorregou em ladeira de flôres, e... ella lá vai com o conde-barão d'Alvito embrenhar-se nas florestas de Cintra.
O mestre de dança bravejou, pediu vingança ás leis, ao direito internacional, ao ministro omnipotente Sebastião José de Carvalho. O ministro e as justiças sorriram, sob capa, do atribulado dançarino. O marquez de Pombal, esse então era tão caroavel de francezas, que ainda, aos 60 e tantos annos, escrevia epistolas amatorias a uma, que por signal lh'as rejeitava com phenomenal honestidade. Veja Historia do reinado d'el-rei D. José, pelo snr. Soriano, tom. II, pag. 649 e seg.
Natal Jacome Bonem sahiu de Portugal, e deixou a filha, quando, sobre a affronta, se viu ridiculisado pelas seguintes coplas que os fidalgos enviavam uns aos outros:
AO ROUBO DE UMA FRANCEZA FILHA DO MESTRE DOS MINUETES
O poema d'aqui por diante leva a crueza até ao despejo da phrase. Que tempo aquelle! Costumes de ouro! Roubava-se a filha a um forasteiro, injuriava-se o pai com obscenas gargalhadas, a vergasta da irrisão obrigava-o a transpôr as fronteiras com o coração despedaçado! Reinava D. José I, o amante da marqueza de Tavora, então viuva, e já consolada da perda do marido, que o amante lhe mandára degolar e queimar no cadafalso de Belem. Como este Portugal floreceu n'aquelles dias! O erario a trasbordar de milhões e os subterraneos de lagrimas!