Houve-os, tambem, frades funestos que escavaram com pulso sacrilego a sepultura dos bons no atascadeiro da politica; e a politica, na hora em que póde arpoal-os, na torrente dos seus enxurros, atirou-os, bons e maus, ao monturo das instituições podres e pestilenciosas.

O descredito das ordens monasticas é quasi coevo da sua instituição. Os santos padres, os concilios, as communas, os poderes civis lavraram desde os primeiros seculos protestos formidaveis contra as religiões alheias do primitivo espirito do seu instituto. A volta do seculo XVII, os mosteiros em Portugal, desatados do vinculo da humildade, e cegos da sua opulencia e authoridade no animo dos principes, haviam tocado o cairel da voragem. E logo que, depois da perda de D. Sebastião, a guerra civil fermentou nos bandos faccionarios dos pretensores ao throno, e a corôa resvalou da fronte do cardeal-rei, a fradaria sahiu dos seus cenobios, e saltou para as praças e arraiaes arrancando a espada do talabarte que cingia o habito.

Reportando-se aos indisciplinados frades d'esse tempo, referem as historias que, no anno 1580, se passou um escandaloso motim no mosteiro dos Jeronymos de Belem. Rebello da Silva repete assim o caso com as particularidades noticiadas por Conestagio:

«Os monges do mosteiro de Belem, da ordem de S. Jeronymo, vendo o reino sem monarcha, as justiças sem respeito, e os abusos sem castigo, intentaram tambem prevalecer-se da desgraça do tempo para vingarem antigas queixas.

«Usando dos poderes de principe e da authoridade ecclesiastica de legado pontificio, e violando a regra e observancia monastica, o cardeal D. Henrique tinha arrogado a si a nomeação dos prelados da casa. Pareceu apropriada aos padres a conjunctura para sacudirem o jugo; e juntos em communidade foram bater á porta da cella de fr. Manoel de Evora, que exercia as funcções de provincial. Abriu-lhes, sobresaltou-se, e acabou de cahir das nuvens, quando lhe disseram que se demittisse logo, porque não tendo sido eleito em capitulo, era nulla a sua jurisdicção, competindo-lhes a elles prover, e designarem por suffragio quem os havia de governar.

«Resistiu; altercaram; lançou-lhes em rosto a demasia e a desobediencia, clamaram; negou-se positivamente a consentir, e viu-se de repente maltratado das mãos dos subditos, preso e encarcerado em um celleiro.

«Achou modo de avisar os parentes, uniram-se e supplicaram ao nuncio, Alexandre Frumento, que se interpozesse, obrigando os frades a soltarem e reconhecerem o seu prelado.

«Responderam com soberba, que o nuncio não era seu juiz. Foi necessario recorrer ao braço secular. Informados de motim tão escandaloso e offensivo da humildade religiosa ás abas da capital, os governadores do reino mandaram aos ministros da cidade, que fossem executar a sentença apostolica acompanhados de tres bandeiras de soldados.

«A resistencia dos padres não diminuiu. Cerraram as portas do mosteiro, deixaram as da igreja abertas, e de dentro das grades do côro na capella-mór respondiam, cantando os officios divinos, ás advertencias e admoestações dos magistrados.

«Por fim a paciencia exhauriu-se; a tropa entrou no templo, e arrombou a grade do côro, que era de pau. Seguiu-se um verdadeiro alvoroto; os guardas forcejando por prender os monges; estes esquivando-se em tropel, ou a um e um, e oppondo as armas espirituaes ás temporaes, bullas, crucifixos, ceriaes, tocheiros, monitorias e excommunhões ao pulso vigoroso dos perseguidores.