Felizarda não parecia talhada (sem calemburgo) para este homem; elle, porém, talhara-se para ella. Far-se-hia boi, como Jupiter, para arrebatal-a, bem que os seus instinctos volateis o levassem para cysne, se Felisarda tivesse, além dos proprios, os instinctos um tanto bestiaes de Leda.

Escreveu-lhe sete missivas profuzas e tristes como os sete peccados mortaes. A costureira que as leu debulhava-se em lagrimas, e decorava periodos para responder ás cartas de um furriel do 13 de infanteria. Felisarda ouvia aquellas coisas com a attenção de uma rã que imerge á flôr do lago os olhos espantadiços e escuta um rouxinol. Como as prosas levavam recheio de quadras, assim que a morgada dava tento da rima, espirrava um froixo de riso, tal qual como no lyrismo de Santo Antonio, no theatro de S. Geraldo. Tinha aquelle aleijão! Era—quem sabe?—a preexistencia d'esta enorme gargalhada que hoje atabafa os golphos da poesia subjectiva.

A costureira interpretou a, e respondeu, vestindo a ideia de Felizarda, com palavras innocentes, mas facinorosas em orthographia. O amanuense amava-a deveras: leu a carta, em que era chamado Bem da menina com V; e, dando os pezames ao seu Monteverde, fez votos de educar Felizarda nas quatro partes da grammatica, se um dia conjugassem o verbo amar, que só é verdadeiramente regular quando o matrimonio o defeca.

Trocaram-se cartas assiduas. Felizarda começava a ser um pouco séria, pouzeira e semsaborona. Amava. Entre a psyche e a outra abriram-se as valvulas de communicação. Tinha morbidezas de Ophelia e indigestões por falta de exercicio. Não sahia do mirante que olhava para o caminho do carro. José Hypolito passava por ali aos sabbados de tarde; e, se a solidão era absoluta, perguntava-lhe como passou. E Julieta, debruçada sobre o barandim do miradouro, com a face rubra e o seio ondulante, dizia-lhe que passou bem.

Nas cartas, fallou lhe em matrimonio, o amanuense. Ella respondeu que sim. José Hipolito, esporeado pelo amor, abalançou-se á interpreza de que os amigos o dissuadiam. Pediu-a ao pai, e arrependeu-se. Silvestre perguntou-lhe quem era e quanto tinha. Ouvida a resposta, disse gesticulando um esgar de desprezo:

—Ora adeus… O senhor, se não é tolo, parece-o.

Despediu-o apontando-lhe para a porta. Depois, chamou a filha e perguntou:

—Que diabo é isto? onde conheceste o pelintra que te veio pedir para mulher?

Ella contou ingenuamente o caso, mostrou as cartas, confessou quem lh'as lia, quem lhes respondia, e concluiu:

—Assim como assim, já agora quero casar com elle.