O leitor já sabe, por eu lh'o haver dito nas primeiras paginas d'este livrinho, que o indiscreto amanuense consentira que se escrevesse que o pai de Silvestre fôra salteador de estradas, e que o pai de Felizarda exercitara o baixo mester de fogueteiro em Famalicão.
Tudo isto era expendido na tréplica de José Hypolito com grande lardo de zombarias e sarcasmos em estylo piccaresco. A morgada ouviu ler as injurias entoadas com vehemencia por Jose Francisco, que as declamou como se estivesse traduzindo um periodo de Eutropio.
Concluida a leitura, Felizarda, antes que o leitor a interrogasse com os olhos, exclamou:
—Quero ir para casa de meu pai, e hade ser já. O Josésinho vai commigo.
Mande dizer a meu pai que me mande a burra.
José foi dar parte á familia da subita resolução da morgada; o depositario foi dar parte ao juiz, e o juiz respondeu que a lei não podia empecer á vontade da depositada. Quando estas altercações chegaram á noticia de José Hypolito, a filha de Silvestre ia já caminho de casa, acompanhada pelo estudante e pelas irmãs.
O pai e a mãe receberam-na nos braços, offegantes de jubilo, a pedir-lhes perdão da sua doudice. Silvestre abraçava José Francisco Alvarães, chamando-lhe o salvador da sua filha e da sua honra. A santa mãe de Felizarda olhava para o estudante com os olhos cheios de riso, e dizia:
—Não queira ser padre, sr. Josésinho… Olhe que o meu homem já disse que se vossa senhoria quizesse a nossa rapariga, que lh'a dava, e eu tambem.
José olhou estupefacto para o velho; Silvestre intendeu o espanto, e disse-lhe:
—Não olhe para mim, que eu não sou o que caso; olhe para a minha filha, e veja o que ella diz. Felizarda, queres casar com o sr. José Francisco?
—Se o pai quizer… tambem eu.—E escondeu o rosto no seio da mãe com umas visagens que pareciam de entremez; mas que eram da maior naturalidade.