Irene levantou-se arrebatada, bradando:

—Que é? que é?

E, pegando no jornal que tremia nas mãos do menino assustado, leu as primeiras linhas que ouvira lêr, premiu o coração asfixiado pela angustia, rolou nas orbitas os olhos torvos sob a palpebra convulsa, e cahiu sem alentos.

—Porque foi?!—perguntou afflicto o menino ao abbade—Ella morre?

—Não, Manoel Philippe. Isto não ha de ser nada. Tua mamã conhecia esta pessoa que morreu, e…. teve pena.

Depois, dobrou o Commercio do Porto, e metteu-o na algibeira da batina para que o filho de D. Irene d'Abreu nunca mais tornasse a lêr o nome de Jacques Smith.

* * * * *

Em 1871, Manuel Philippe de Abreu e seu irmão Jeronymo de Abreu e Lima, ambos terceiranistas da universidade, vieram ás Caldas de Vizella, com sua mãe, a sr.^a D. Irene. Esta illustre e respeitada fidalga de Athey não contava ainda cincoenta annos, e estava hemiplegica—metade do corpo paralytico. Era transportada em cadeira de rodas ao Banho da bomba forte. Uma vez quiz ir até á Ponte-velha, que não vira desde 1851. Defronte da ilhêta onde em 15 de junho d'aquelle anno Alvaro de Abreu e João Pacheco trocaram os fataes gracejos, mandou parar a cadeira. Quedou-se longo tempo absorvida na contemplação do salgueiral; depois, enxugou duas lagrimas. Que lagrimas, ó leitor! Os filhos perguntaram-lhe por que chorava; e ella, estrangulada pelos soluços, contorcia-se, pedindo-lhes que a tirassem d'ali, que sentia já o frio da morte.

Levaram-na apressadamente para o quartel em uma das casas situadas no local chamado o Medico. Ao nascer do sol do seguinte dia dobravam a finados sinos de S. João das Caldas. A fidalga de Athey expirara nos braços dos seus dois filhos.

Perguntei ao capellão d'esta senhora se ainda era vivo o abbade de Santa
Eulalia, muito affeiçoado á senhora fallecida.