É possivel. Os caixeiros do Porto, sadíos e sanguineos, com as suas luvas amarellas, e todo o verniz, que lhes coube em sorte, nos pés, entraram Minho dentro, e derramaram a dissolvente chalaça nas aldeias. Por outro lado, a raça turdetana de Braga fechou pelo norte a barreira á innocencia espavorida. A cidade santa de nossos pais e dos conegos, a esposa de Fr. Bartholomeu dos Martyres, Braga despeitorou-se, desnalgou-se, sofraldou as saias e mostrou a liga sobre o joelho desde que um jornal da terra lhe chamou segunda Pariz. Eu não reparo na desproporção do confronto, quando alli me vejo no Café-Faria, a sentir-me arquejar em uma das arterias do grande corpo da civilisação chamada Europa, como lindamente diz o sr. Vaz de Freitas na sua Guia do Viajante em Braga, por seis vintens. Tudo me leva á persuasão de que me acho na segunda Pariz, quando a Guia me assevera com exactidão, ainda não contraditada pela inveja, que Braga encerra nos seus muros sete procuradores de cauzas, e que ahi (pag. 28) os barbeiros superabundam. Fazia-se ainda pelos modos uma terceira Pariz com a superfluidade dos barbeiros!

A cathegoria modesta, em que o jornalista afidalgou a sua terra, justifica-se principalmente nas estalagens. Ahi, é ahi onde o viajante se sente saturado de Pariz, a ponto de, cuidando que accorda alvoroçado pelas campainhas electricas do Grande Hotel no Boulevard des Capucines, acha-se em Braga, no hotel-Aveirense, largo dos Penêdos. Avantajam se ainda ás hospedarias parisienses, no ponto de vista zoologico, os hoteis da princeza do Minho. Os forasteiros dados a pesquizas de anatomia comparada, podem, mediante uma gratificação rasoavel, passar as suas noites em vigilias uteis estudando insectos sem queixos e sem azas, de membros articulados, consoante a classificação de Cuvier. Ali se lhes offerecem exemplares em barda da pulga braguez (Pulex bracharensis). Convencer-se-ha que as seis pernas d'este parazita são deseguaes, o que assim se faz mister para o salto. Não duvidará que elle tem o bico alongado com duas cerdas, e guarnecido na baze de dois palpos escamosos. Se reparar bem nas pulgas maiores, dissipará suspeitas de que tem azas que realmente não tem as do Hotel Leão d'ouro nem as do Hotel-transmontano. Encontram-se n'estes dois estabelecimentos larvas das mesmas, cylindricas e sem pernas. O olho armado póde observal-as a mudarem-se em nymphas, que não são exactamente umas de quem cantava Garret:

As nymphas invoquei do Tejo ameno
Que em mim creassem novo engenho ardente,
Etc.

Cam. C. IV.

Nem as outras de quem dizia o épico:

Caem as nymphas, lançam das secretas
Entranhas ardentissimos suspiros…

Lus. Cant. IX.

Verdade é que o accessorio das secretas, ínclusas no verso de Camões,
deixa suppor que elle quizesse fallar das nymphas dos hoteis de Braga.
Que estude o caso o sr. visconde de Juromenha, e não o desampare a
Academia Real das Sciencias.

Nos hoteis de Braga, finalmente, dão-se as mãos o espavento das modernas industrias, as refinações da decoração, a obra prima de marcenaria e vidraria,—um luxo levantino, como em recamaras de Nababos—e sobre tudo a hygiene expansiva de saude a dar cambalhotas na brancura virginal dos lençoes; e á mistura com tudo isto resalta não sei que de archeologico n'aquelles quartos! A gente, quando vae deitar-se, imagina que n'aquella mesma cama dormiu na noite passada S. Pedro de Rates ou Gonçalo Mendes da Maya.

Por fora das estalagens ainda ha proeminentissimas feições de Pariz em Braga. O Jardim, por exemplo. V. ex.^a já esteve no jardim? Impressionaram-no com certeza uns rumores, «ora suffocados, ora estrepitosos» que ali se escutam nos domingos de tarde? Tambem a mim. Não pôde soletrar em sons articulados aquelle confuso borburinho? Nem eu. Quem explica o phenomeno, trivial nos Champs-Elysées e no parc de Monceau, é o já citado sr. Vaz de Freitas na sua Guia do viajante em Braga, por seis vintens, pag. 41. A coisa é isto: O chilrear das creanças, o divanear das poetizas, o queixume somnolento dos poetas, a conversação pezada e metalica dos proprietarios, todos estes murmurios vagos ou alegres, suffocados ou estrepitosos (hîc) enfundem uma vida nova e excepcional ao passeio, que o tornam attrahente ou deleitoso. Theophilo Gauthier, o Benvenuto Celline da proza franceza, não rendilharia com tão subtis filigrannas de phrase a explicação dos ruidos babylonicos do Luxemburg. D'onde se colhe que Braga tem poetizas que exhibem delirantemente os seus devaneios no jardim, ao mesmo tempo que os poetas se queixam somnolentos. Pariz, tal qual. Note v. ex.^a o contraste no sexo d'estas pessoas que bebem na Castalia: ellas divaneam, apostrophando a gritos o arrebol da tarde e a brisa que cicia e se perfuma nas cilindras; elles, cabeceando marasmados pelo opio do narguillé, queixam-se somnolentos, por que não os deixam dormir as poetisas. São homens gastos, estafados, roués. Sahiram do café-Faria intoxicados do absyntho de Espronceda, de Nerval, de Larra e de Mussét. Entraram no jardim com o cerebro anesthesiado, querem dormir; e ellas, á imitação do femeaço da Thracia, projectam escalavrar aquelles Orpheus dorminhôcos, Marcyas que ellas, filhas de Apollo, querem esfolar. Segundo Pariz.