—Valha-me Deus, sr. abbade!—replicou timidamente a tecedeira.—Então a religião de nosso Senhor Jesus Christo não dá remedio a estas desgraças, que tantas vezes acontecem? No melhor panno cae a nodoa. Logo que elles se casem, está tudo remediado, pois não está?…
—Está o quê?… Então uma rapariga de boa familia, que tem tres tios padres, e que é filha de um capitão de ordenanças, caza-se assim com um engeitado que vossê encontrou na bouça da egreja entre o mato?…
—É verdade; mas todos somos filhos de Deus,—argumentou a tia Bernabé, e mais longe iria na sua preleção de caridade ao pastor, quando uma visinha a chamou á porta da rezidencia para lhe dizer que Belchior estava prezo entre seis cabos de policia que o levavam para soldado, e elle a mandava chamar para se despedir.
Ainda desceu precipitadamente as escaleiras a tremula velhinha; mas, a poucos passos, cahiu de joelhos, amparou-se no vallo, e debruçou-se desmaiada.
Entretanto, o regedor ordenava aos cabos que levassem o prezo, visto que a tia Bernabé fôra levada sem accordo para a rezidencia. Belchior pediu que o deixassem ir lá despedir-se de sua mãe. O regedor voltou-lhe as costas, acenou aos cabos que marchassem.
* * * * *
Em Famalicão deram-lhe uma guia, e enviaram-no entre seis espingardas para Braga. Ao outro dia era soldado.
A tia Bernabé procurou-o no quartel do Populo n'esse mesmo dia. Quando o viu de cabeça tosquiada como cão morrinhoso, e colleira de couro preta, estonteou-se-lhe o juizo e esteve a pique de cahir. O recruta, chorando com ella nos braços, apiedou o commandante da guarda, que os mandou entrar na casa das tarimbas. D'ahi a duas horas, tocou a corneta a recruta. Belchior já não tinha nome. Era o 29.
—Salta d'ahi, 29!—bradou-lhe um anspeçada.
—Que é?—perguntou a tecedeira.