—Muito bem! muito bem!—exclamou arrebatado o brazileiro—muito bem, honrado homem!—e apertou-lhe a mão, levando-a aos labios.

O abbade retirando a mão humida de lagrimas, disse commovido:

—Fiz o meu dever, senhor! Oxalá que esta boa acção me seja descontada nas muitas ruins que tenho na minha vida…

—E depois, o pequeno…—atalhou pressurosamente o hospede.

—O pequeno, eu lhe digo… Agora tornemos a fallar da mãe… Trez annos e meio esteve fechada no tal carcere. Via apenas uma irmã que lhe levava o alimento. Depois, esteve em perigo de vida, e pediu um confessor. Fui eu o chamado á falta de outro. No acto da confissão, disse-lhe que o seu filho estava em minha casa, e que passava por ser meu parente. Outros, sr. commendador, diziam que elle era meu filho e da mulher que o amparára. Perdoei aos calumniadores, para que Deus me perdôe os escandalos que dei: era justo que me diffamassem porque eu dei azo a isso com os desatinos da minha mocidade. Maria, quando soube que tinha seu filho vivo, ganhou forças, quiz viver, e venceu a doença. Dizia-me ella: «se eu viver, hei de ter alguma coisa d'esta caza, e o que eu tiver será do meu filho; e, se eu morrer, ficará pobresinho de pedir.» De pedir não—disse eu—porque vou mandar-lhe ansinar um officio logo que elle chegue á idade de poder trabalhar. Perguntou-me então se eu sabia alguma coisa do Belchior. Fóra da confissão, respondi-lhe que o calafate muito em segredo me dissera que elle fôra para o Brazil. No primeiro anno, o calafate recebia a miudo cartas do Belchior, que o rapaz escrevia á mãe adoptiva, cuidando que ella estava viva. O calafate escrevia para lá que a Bernabé tinha morrido; e o rapaz a escrever sempre á Bernabé. A opinião do calafate era que o Belchior lá andasse pelos sertões onde nunca lhe chegavam as cartas idas de Portugal. Depois, o calafate morreu. O que se passou d'ahi em diante não sei. Foi isto o que eu contei a Maria. Por fim, espalhou-se por ahi que o Belchior tinha morrido; e eu aproveitei a noticia, quer fosse verdade quer não, a fim de vêr se o pai da pobre moça lhe dava alguma liberdade. Fallei n'isto ao Silvestre, e, em nome de Deus o fiz responsavel pela privação em que a tinha da missa e dos sacramentos. Tanto lhe bati á porta da consciencia dura, que consegui deixal-a confessar-se e ouvir missa uma vez de trez em trez mezes. Pouco e pouco, obtive que ella viesse á egreja de quatro em quatro semanas, e n'essas occasiões já ella sabia que o seu filho era o menino que me ajudava á missa. Uma vez entrou na sachristia, não estando mais ninguem na igreja; abraçou-se no filho e desfez-se em lagrimas. Deixei-a, coitadinha! mas depois pedi-lhe que não tornasse a fazer tal imprudencia, por que, se alguem a visse, não tornaria a sahir do seu carcere. O rapaz, quando fez quatorze annos, lia e escrevia correntemente. Mandei-lhe ensinar o officio que escolhesse: quiz ser carpinteiro, para o que tinha muita habilidade. Essa cadeira em que v. ex.^a está sentado fez-m'a elle. Veja que bonita peça! pois ainda não tinha dado um anno ao officio quando fabricou essa obra que parece feita no Porto!

—E está aqui n'esta freguezia o tal Belchior?—perguntou o brazileiro.

—Não, meu senhor, está trabalhando em Braga; mas vem aqui todos os mezes ver a mãe no dia em que ella se confessa.

—Todos os mezes?

—Sim, sr., na primeira segunda feira de cada mez. D'hoje a oito dias, se eu viver, hei de ouvil-a de confissão, e dou de jantar ao meu Belchior.

—D'hoje a oito dias? Que prazer v. s.^a me dava, sr. abbade, meu honrado e querido amigo, se me consentisse que eu contemplasse na sua igreja essa martyr a rever-se no seu pobre filho! Seria possivel?