—Completamente cego, ha trinta e trez annos. Na flôr da idade, quando saudava as flôres da minha vigesima segunda primavera, ceguei.

—E resignou-se…

—Se me resignei!… Morri de dôr, e resuscitei em trevas eternas… O sol, nunca mais!

Pungia-me a compaixão. Disse-lhe consolações banaes; citei os mais luminosos cegos antigos e recentes. Nomeei-lhe o principe da lyra peninsular, Castilho, e elle atalhou:

—Castilho tem o genio que vê as coisas da terra e do ceu. Eu tenho as duas cegueiras do corpo e da alma.

Achei-o eloquentemente sobrio e áttico; figurou-se-me até litterato dos bons. Lembrei-me se elle vinha convidar-me para fundarmos um jornal em Landim, ou se viria pedir-me para o propôr socio correspondente da academia real das sciencias.

Discretiamos de parte a parte em variados assumptos, até que elle explicou as suas pretenções. Tinha um litigio pendente sobre a posse disputada de umas azenhas que lhe haviam custado tres contos de réis, e pedia a minha valiosa preponderancia afim de que os juizes de segunda instancia lhe fizessem justiça inteira.

Observei-lhe que a minha influencia poderia ser-lhe necessaria, se a justiça estivesse da parte do seu contendor; por quanto, quem não tem justiça é que pede.

—Apoiado!—interrompeu elle—A razão diz isso; mas acontece que o meu contendor pede porque não tem justiça; ora não vão os juizes cuidar que eu tenho mais confiança na lei do que n'elles…

Pareceu me sagaz, argucioso e um pouco germanico o cego.