Contava um rapazinho, creado de Pinto Monteiro, que ouvira, uma vez, sua ama dizer a Narciza que ia mandar vender dois cobertores porque não havia dinheiro em casa; e que Narciza lhe dissera que não vendesse os cobertores, por que ella ia vender a sua pistola por meia moeda. Não tenho outro lance generoso que possa referir de Narciza do Bravo.
Quando este caso passou, entrava Antonio José Pinto Monteiro nos paroxismos da morte. A 28 de novembro de 1868, pelas dez horas da manhã, disse á irmã que lhe accendesse um cigarro, e abrisse as janellas, que sentia grande calor e ancia. Sentou se no leito, e inspirou consoladoramente a columna de ar frigidissimo que lhe bateu no rosto, ao abrir da janella. Pediu uma chavena de café, e, emquanto a irmã o fazia, Narcisa veiu para a beira do padrinho.
—Quem é?—perguntou o cego.
—Sou eu, padrinho. Está melhor?
—Vou estar melhor, filha. Isto vai acabar. Quando eu morrer, faze companhia á minha pobre irmã…
Narcisa chorava, beijando a mão do cego, que se estorcia nas dôres da cystite. Ao cahir da noite, a prostração, a febre, os soluços, e o frio das extremidades diagnosticavam a gangrena. No 1.^o de dezembro, o cego de Landim expirou reclinado ao seio de Narciza, que se sentara no leito para o amparar nos derradeiros arrancos.
As suas ultimas palavras, no delirio que precedeu a morte, encerram toda a moralidade d'esta biographia:
—Eu tinha tres filhos que criei com tanto amor… Que é d'elles?…
E mais nada.
Os tres filhos do cego de Landim affrontar-se-hiam com o nome de seu pai? Para ter um peito amigo que o amparasse na agonia, foi mister que a sociedade remessasse para dentro da alcova do moribundo uma mulher perdida. Mas, lá ao longe, no Brazil, houve lagrimas saudosas no coração de uma filha. Pois quando é que Deus consentiu que uma filha as não chorasse… n'um epitaphio?