—Chame-me sua creada Brites. Paixão para bem ou para mal?

—Eu queria casar-me com elle; mas meus irmãos perseguem-nos.

—Eu logo vi que a vinda de v. ex.ª era cousa de amor... O seu adonis não é fidalgo pois não?

—Não é...

—Logo vi... E é pessoa de bom porte?

—É um alferes de cavalleria, muito bom de coração, muito gentil, a minha paixão unica, o meu disvello de ha tres annos, a minha vida... e será a causa da minha morte.

—Coitadinha! Deus o fará melhor. Então quer a menina que elle saiba que a trouxeram para aqui?

—Sim, queria.

—Então, deixe estar, que eu de hoje até ámanhã, hei de cogitar no caso. Pediu-me isso por alma de sua mãi, eu só se não poder de todo em todo. Quem me ha de levar a cartinha, se as contas me não falham, ha de ser o cocheiro da caleça; mas o peor é não termos outro papel... Ora espere, que eu tenho alli uma sentença que me cá deixou meu sobrinho, que andava a aprender a ler. Tinta arranja-se sem a menina furar os seus mimosos dedinhos. Com uma pouca de felugem da chaminé e vinagre, faz-se tinta. Penna, vai se tirar uma de gallinha, e com uma faca fazem-se-lhe os bicos.

A sr.ª Brites em tanto tempo quanta era a anciedade de Eugenia, veio com tudo a ponto: meia folha de papel sellado do tempo de D. João V, uma tigella com a dissolução de felugem em vinagre, uma penna de galinha, e a faca mais afiada.