Conclusão

Passaram-se vinte e um annos.

Ainda que o contrario se afigure a pessoas, que teem a boa sorte de não escrever romances, a conclusão d’um livro d’esta especie é dolorosa de fazer-se, quer os personagens tenham existido, quer vivessem, como chimeras queridas, na phantasia do escriptor.

É doloroso, digo, porque ha ahi um facto formidavel e horrendo, que tanto vinga nos personagens verdadeiros como nos imaginados: é a morte. O romancista historico tem de matal-os em nome da historia: o romancista inventor tem de matal-os em nome da verosimilhança.

Eu creio que o leitor denega sua fé aos successos que lhe contei. É injusto com a maxima parte d’elles. Ahi foram esboçadas umas pessoas que viveram, e outras que vivem com outros nomes e em outras terras. E por isso redobra a minha mágoa por não poder dizer que vivem todos.

As duas sympathicas velhinhas, Brazia de Villa Cova e Brites de Recaldim, essas ha muito que já lá vão. Com isto privo o jornalismo do innocente gaudio de annunciar duas macrobias. Brazia morreu, como lá dizem, á imitação d’um passarinho, com oitenta e nove annos de idade, em seu perfeito juizo, e conformada com a vontade de Deus. Legou os seus ordenados de setenta e nove annos ao filho mais velho de Ladislau, e o seu ouro, composto de cordão e anneis, a Peregrina. É verdade que estes valores não chegaram para as missas de que ella onerou os herdeiros por sua alma e por almas idas ha tanto tempo que ou Deus as tinha comsigo, ou o descondemnal-as seria tardio intento. Brites lá se finou em Recaldim, poucos mezes depois da sahida de D. Eugenia para o Brazil. As desventuras da filha da sua menina minaram-n’a tanto que a saudosa velha, de dia para dia, se resvalou á sepultura, pedindo a Deus que a não castigasse por ter protegido a desgraçada senhora. Aquella Apollinaria da calçada dos Barbadinhos, que o leitor esqueceu, não esqueceu á condessa de Asinhoso. De volta do Rio de Janeiro procurou-a, achou-a pobre e cega, deu-lhe abundancia, empregou-lhe os filhos, e fez-lhe o enterro annos depois.

Ruy de Nellas morreu em 1850, nos braços de Casimiro e Christina, unicos filhos que viu á hora da morte. O vigario de S. Julião d’Arga tão santos dizeres lhe fallou n’aquella tremenda hora, que o moribundo inclinou suavemente a cabeça, e expediu a alma ao seu creador, abençoando as filhas ausentes.

Ao nono dia depois do fallecimento, a casa estava vasia, e D. Soeiro estava a empossar-se n’ella, instaurando logo demandas ás cunhadas, e articulando contra Casimiro Bettancourt um libello de subtracção de baixella vinculada: calumnia que nos tribunaes redundou em maior infamia do litigante.

Christina, Casimiro e sua mãi passaram á casa construida. Ahi receberam, volvidos tres annos, D. Guiomar de Nellas, fugitiva do marido, que a martyrisava, tornando-a serva de suas creadas, com quem elle devassamente commerciava a morte lenta da esposa. Casimiro recebeu-a com respeito, Christina com amor, a condessa com a virtuosa indulgencia que aprendera na desgraça. A perseguição de D. Sueiro alli mesmo lhe cravou a seta hervada, fazendo-a intimar para se ir voluntariamente estender no potro de torturas. Casimiro tomou sua cunhada á sua guarda, depositou-a n’um mosteiro de Villa Real, e d’ahi requereu separação judiciaria, que conseguiu com illibados creditos. D. Sueiro, passados annos, morreu d’um tiro que por descuido se deu, andando á caça. Em Miranda vogava a suspeita de que o tiro lhe fôra desfechado por um lavrador vingativo, inconciliavel com a fidalga deshonra de sua irmã. Guiomar tomou cargo da educação de suas filhas, que não tinham educação nenhuma, e vive em paz e devotamente no seu palacio de Pinhel.