—É um facto consummado—dizia o padre.

—É uma usurpação consummada!—replicava o fidalgo, e sibillava um agudo ai, levando a mão ao artelho esquerdo, cuja dor só podia comparar-se á do artelho direito.

E como o afilhado não pudésse restaurar ao throno usurpado o senhor legitimo á vontade do padrinho, Ruy voltava-lhe as costas, e o padre sahia melancolico a encerrar-se no seu quarto com os seus poucos livros, ou ia leccionar em primeiras letras as filhas do fidalgo, a segunda das quaes principiara o alphabeto aos dezeseis annos, Deus sabe com que repugnancia.

Demorei-me accintemente n’estas dispensaveis explicações para dar tempo a que os tres convivas almoçassem e conversassem. Conversassem, é menos exacto. Quem fallou sempre foi o vigario, e é de presumir que o auditorio o attendesse escassamente. Ladislau, se alguma cousa escutava, era o poema interior, os hymnos descompassados, mas sublimes, que soavam dentro em seu coração. Estranhas musicas deviam de ser aquellas para o moço surprehendido, na alva do seu primeiro dia de amor, por enchentes de luz desconhecida! O amor, que vem procurado, como sensação necessaria á felicidade da vida, perde dous terços da sua embriagante doçura; porém, o amor inesperado, impetuoso e fulminante, esse é um abrir-se o céu a verter no peito do homem todas as delicias puras que não correm perigo de impestarem-se em contacto com as da terra. Era d’esta especie o sentimento de Ladislau, nascido na hora em que elle ia confirmar sobre a sepultura de seu tio o pacto de ser sacerdote, abjurar as desconhecidas allianças do coração com o mundo, e acceitar as que atam o coração ao mundo com o laço da caridade evangelica.

Ora, aquelle poema interior, se alguem podia decifral-o, era Peregrina. A mulher innocente e admiravelmente dotada do sexto sentido, que recebe as impressões não classificadas na ordem physica nem moral. Adivinha quem a ama, antes que lh’o digam. Parece que o ar se lhe povoa de espiritos amigos, que giram entre ella e os olhos de quem, a fito ou de revez, a requesta. Aquelle diaphano veu de escarlate que lhe purpurea o rosto, não é sangue como dizem os materiaes definidores de tudo: a mimosa susceptibilidade de cutis, chamada pudor, não pode ser sangue; em quanto a mim, é o sombreado das azas iriadas dos espiritos que voejam no ambiente da mulher immaculada, ou então reflexo das coroas de rosas, com que o deus festivo dos amores a infeita, cioso de ter nos seus altares o pouco d’este mundo que merece e desculpa a idolatria.

Posto que este dizer tenha um sabor mythologico, pagão, e, sobretudo, antiquissimo, ha-de o leitor conceder que o seu servo romancista, tal qual vês, se desgarre do caminho trilhado á moderna, para não dizer sempre que os seus personagens estavam arrobados, extaticos, ou, o que é peior, perdidos de amor.

Os meus personagens, Ladislau e Peregrina, não estavam arrobados nem extaticos, porque ambos confessam que comeram da travessa vidrada a sua porção de ovos, e tomaram cada qual o seu caldo-verde (palavra indigna de tão levantado assumpto!)

Perdidos tambem não estavam; porque o perder-se ou transverter-se o coração é quasi sempre a prova real de não ter sido o primeiro nem o melhor um certo amor com que os alienados se desculpam.

O amor, que não perde nem desvaira, esse é que é o amor.

Eil-o ahi, pois, profundo, sereno e bello como o oceano em calmaria.