Ladislau entrou na cosinha com a ave, e viu Peregrina com um alguidar no regaço, cegando as couves. Estranhou a Brazia o estar a irmã do sr. vigario n’aquelle serviço, e a velha respondeu serenamente:

Ella assim o quer; e bem haja a moça! Estou-me a regalar de a ver! Parece-me mesmo sua mãisinha, quando aqui entrou pela primeira vez. O noivo estava lá no sobrado com os padrinhos e parentes, e ella desceu cá p’ra cosinha a ajudar as criadas.

—Pois sim—replicou Ladislau—mas minha mãi era dona da casa e esta senhora é hospeda.

—E por que não ha de ser dona? Se o não é, ella o será, querendo Nossa Senhora.

Estas palavras avermelharam as faces de ambos, que não poderam suster o relance de olhos que se trocaram.

—Pois então!—continuou a serva, cortando do presunto uma boa talhada.—A vida de padre boa é; mas não queira o Senhor que o menino seja padre. O que é preciso é casar, sr. Ladislau. Deus que lhe deparou esta creatura, lá sabe por que o fez. Vamos; é casar depressa, que eu não quero morrer sem ver gente miuda n’esta casa. O menino fez-me cabellos brancos, quando era pequeno (que a fallar a verdade eu já não tinha cabello preto nem para uma mézinha). Andava sempre a fugir p’ros campos, e eu a procural-o, e ia dar com elle a caçar grillos á torreira do sol: e de inverno andava sempre por essas fragas acima em risco de malhar aos fundões. Deu-me que fazer; mas é o mesmo: quero aturar tambem os seus filhos. Quando eu vim para cá, seu pae tinha cinco annos, e eu dez; se eu morrer, deixando cá um netinho delle, vou contente... Então não dizem nada?

Ladislau, sem a velha dar fé, tinha sahido envergonhado, e mais ainda por ver que a Peregrina, ao passo que Brazia fallava, descia o rosto sobre a hortaliça, voltando-o de modo a não ser visto de frente pelo moço, que por sua parte se estava tambem escondendo no mais sombrio da cosinha, até encontrar a porta por onde sahiu.

O vigario, estava esperando Ladislau, na vasta casa da livraria.

Havia muito que ver e admirar nas estantes dos numerosos sabios d’aquella familia. A bibliotheca fôra principiada no ultimo quartel do seculo XIV por um padre Vicente Militão, que fôra peregrino a Roma, e estivera no concilio tridentino, e lá fôra muito acceito, por seu saber, e reportadas virtudes, ao santo arcebispo de Braga, D. Bartholomeu dos Martyres. Encadernadas em pergaminho, com o Breviario do padre Vicente, lá estavam algumas cartas do primaz das Hespanhas, cartas magoadas revelando o peso das obrigações prelaticias, e outras mais de folga, datadas no convento de Vianna do Minho, onde o humilde principe da igreja se fôra a descançar, e morrer nas delicias «d’uma estreita cella, paredes nuas, em mezas sem panno, um candieiro de ferro pendurado de um prego, uma cama de frade ordinario sem cortina, nem genero de paramento sobre uma táboa de pinho.» Estas palavras de fr. Luiz de Souza recordava o padre João Ferreira, quando religiosamente deletreava os caracteres amarellados e meio delidos das cartas do arcebispo.