Brazia continuou:

—Pois como eu vinha dizendo, a Historia Sagrada conta que antigamente um moço sahia da sua terra em cata de outra terra, onde estava a noiva, que elle nunca vira. Batia á porta do sogro, pedia-lhe a filha e casava. Isto é que eram tempos, moça! «O coração não tinha peccado que fosse preciso descobrir com o tempo» dizia o sr. padre Praxedes, quando a irmã se admirava de casamentos assim de fugida. Olhe-me bem n’isto, que estas palavras teem muito que deslindar. N’aquelle tempo, a moça casadoura era por dentro como por fóra; via-se como á luz do meio dia o que ella lá tinha no seu interior: agora, pelos modos, é preciso espreitar muito tempo as inclinações das pessoas! O pai do sr. Ladislau era dos rapazes antigos: viu a menina lá em cima na lapa da Crasta, gostou d’ella, tornou lá a saber se ella o queria, foi ás Chãs aonde ao sogro; e, d’ahi a dias, já ella aqui estava a encher esta casa de satisfação. É como foi, e é como ha de ser! Senhor Jesus do bom despacho, não me deixeis ficar mal!

Ladislau e o vigario, chamados pela velha, desceram á cosinha, onde estava posta a meza. Jantaram alegremente e de vontade. Os dizeres de Brazia, tendentes todos ao casamento, assazoavam as singelas iguarias do vigario, que pondo os olhos, quer na irmã quer em Ladislau, reparava na gravidade com que em silencio escutavam as facecias da inquebrantavel velhinha.

—Será possivel que...

Disse entre si padre João, e cuidou ler no rosto do hospede e no rosto da irmã esta resposta:

—É possivel, e é certo.

Findo o jantar, sahiram a tomar o sol na eira.

Brazia, porém, puchou da batina ao vigario, chamou-o de parte, e disse-lhe:

—Deixe-os lá...

Padre João não achou que responder á velha, e fez menção de seguir sua irmã, que o estava esperando.