—Vá fazer tambem um raminho, ande, menina, e dê-o ao sr. Ladislau.

Peregrina poz a vista timida no irmão. O vigario fez um gesto de consentimento. Ergueu-se ella a colher umas enfezadas flores silvestres e inverniças que se definhavam entre os silvedos, e Brazia, ao mesmo tempo, dava umas palmadas e tregeitava uns saltinhos de cegonha, muito para riso, senão justificassem a alegria que lhe acreançava os oitenta annos. Santa creatura para namorados era aquella Brazia! Estar ella dizendo tudo que elles queriam dizer-se; fazer-se lingua de corações á hora em que nem os proprios donos saberiam articular a linguagem d’elles; obrigar Peregrina a colher flores, quando a moça estava perguntando a si propria se parecia mal colhel-as e offerecel-as! E hão de rir-se pessoas, que amaram ou amam, da velhinha que tudo aquillo fez com tanto sizo e proposito e angelicas intenções!

Peregrina deu as suas flores a Ladislau, e recebeu o ramilhete d’elle. Qual dos dous tinha coração mais feminil? Pelo rubor da face não havia estremal-os.

—Onde iria a tia Brazia?—perguntou o vigario, vendo-a sahir açodada e regamboleando as rebeldes pernas pela eira fóra.

A velha pouco se deteve. Chegou esbofada. Chamou de parte Ladislau, e disse-lhe de modo que o vigario e a irmã ouviram:

—Esta argolinha de ouro deu-a seu pae á mãisinha na vespera de se casarem, e já foi de sua visavó. Aqui a tem. Vá dal-a á sua noiva, senão levo-lha eu.

Ladislau ficou atonito e immovel. O vigario sorriu, e disse á velha:

—Sr.ª Brazia, vm.ᶜᵉ está sonhando um alegre sonho. Deixe ver se o tempo, com a vontade de Deus, confirma os seus bons desejos, que serão tambem os meus.

Ladislau, como levado de insuperavel força, avisinhou-se de Peregrina e offereceu-lhe o annel. O vigario, abalado e commovido pela acção inesperada do mancebo, tomou a mão convulsa de sua irmã, e vestiu-lhe o annel. Depois, apertando nos braços o noivo de Peregrina, exclamou:

—Pois não é um sonho?