—Ainda te falta uma.
—Quem é?—acudiu o outro.
—A luveira da Rua Nova da Palma.
—É verdade... a luveira, a mais sympathica e adoravel e florida vergontea d'um tronco roído e verminoso. Hei de mostrar-lhe a vossê a luveira, a dôce creatura que faz lembrar a borboleta iriada que saíu de uma crysalida paludosa. Quer?
—Com a mais ardente curiosidade—respondi.
—Ámanhã.
No dia seguinte, o pontual amigo levou-me á Rua Nova da Palma, e ahi entramos em uma pequena loja de luvas e camisaria.
A dentro do balcão estava sentada a costurar uma senhora, singelamente vestida, e formosa quanto a mais descompassada phantasia podéra cobiçar. Figurava, quando muito, vinte annos; mas eu já ia prevenido de que ella não podia contar menos de vinte e sete; e, se o não fosse, desde logo, em vista da sua edade apparente, refutaria a procedencia que lhe davam, se queriam que houvesse nascido durante o reinado de D. Miguel.
José Parada cortejou-a gravemente, chamando-lhe D. Maria José. Ella recebeu o cumprimento{10} com agraciado rosto, e correspondeu á minha cortezia, depois que lhe fui apresentado como homem de letras... maiusculas, minusculas, cursivo, bastardinho, etc.—letras, que, longe de serem ganancia, seriam o desdouro d'um cambista e a fallencia de dois bancos.
Logo percebi que a dama luveira era mais ou menos entendida em romances, pelo benevolente sorriso com que acceitou a minha apresentação; e tambem observei, de passagem, que esta senhora, se estimava livros, não se parecia extremamente com os avós—dessimilhança, porém, que não fazia implicancia á magestade da sua origem.