Antonio Ferreira Baldaque deu aso a suspeitarem-no pae do mulato quando o mandou á escóla, trajando-o com decencia incompetente a um servo. Aggravaram-se, porém, as desconfianças, quando, prompto em primeiras lettras, o rapaz seguiu estudos superiores.{120}
Poucos annos antes, havia casado o negociante com a mãe de Raul, a qual, ciosa da consideração que o esposo liberalisava ao filho da escrava, disparou em impertinencias que poderiam resultar a felicidade do mulato, se elle pendesse a engrandecer-se por lettras.
Quiz o prudente esposo restabelecer a paz domestica, enviando Damião a seguir em Portugal a carreira da jurisprudencia ou da medicina na universidade de Coimbra. O rapaz ouviu as ordens do padrinho, e respondeu humilde, mas com firmeza, que não queria ser doutor, nem tinha queda para estudos.
Esta confissão não era vaidade mal rebuçada em modestia. Em Damião Ravasco, ao passo que a esforçada musculatura se alargava com proporçoens agigantadas, parecia que as potencias da alma lhe eram deprimidas pelo pezo da materia. Os condiscipulos não ousavam motejar-lhe a rudêza, desde que elle, em polemicas grammaticaes, abusando dos preceitos mais vulgares da camaradagem litteraria, respondia com sôccos ou marradas aos argumentos dos adversarios: indignidade que ainda não vimos praticada em outra parte, senão no parlamento portuguez.
Os professores haviam já prevenido o protector do mulato, quanto á incapacidade rebelde{121} do estudante; apesar disso, Baldaque desejou illustral-o, até ao momento em que Damião por claros termos se recusou.
Interrogado sobre o modo de vida que melhor quadrava ao seu genio, o rapaz, que então contava dezoito annos, respondeu que o seu gosto era ser boleeiro; e acrescentou que tarde ou cedo o havia de ser, porque ninguem fugia á sua estrella.
Ou porque respeitasse a estrella de cada sujeito, ou receiasse denunciar o que era, ou dar mais fortes suspeitas do que não era, o negociante offerecera alguns contos de reis a Damião Ravasco a fim de que se estabelecesse, consoante sua vontade e vocação.
O mulato rejeitara o dinheiro dizendo entre soluços que não queria deixar o padrinho; e, abraçado ao pequeno Raul, rogava-lhe, debulhado em lagrimas, pedisse ao pae e á mãe que o não mandassem embora.
A esposa do submisso negociante não condescendera. Os rasteiros instinctos de Damião, preferindo a cocheira á universidade, e a sella ás cartas de bacharel, acerbaram o desamor da dama que afiava cortantes chacotas contra a defunta escrava, assacando-lhe que ella arteiramente capacitara da tal paternidade o seu senhor, usurpando direitos de progenitura a algum obscuro lacaio. Antonio Baldaque,{122} posto que não se desse como pae do mulato claramente, devorava em silencio o insulto, deixando-se invilecer e maneatar pelas centenas de contos que a esposa augmentara aos seus haveres.
Não era elle todavia insensivel ao espinho occulto que lhe pungia na vaidade de pae, quando diligenciava demover o afilhado da vil profissão de boleeiro, incitando-o a sair para Portugal, onde lhe segurava recursos para negociar, se não quizesse outra carreira.