Contou-me, depois, José Parada que D. Maria José de Portugal, a luveira, havia sido requestada, para casamento, de homens não só abastados, mas tambem fidalgos da raça cavalleirosa e da industrial, e até—o que mais importa—de litteratos.

—Não duvide vossê—proseguiu elle, derivando do meu ar desconfiado a incredulidade com que escuto, em geral, historias de desprendimento, quando são de ouro os ganchos com que a alma d'um homem pretende acolchetar-se na alma d'uma mulher.—Não duvide—insistiu Parada.—Eu não faço romances, nem invento prodigios. Nego a existencia da virtude em quanto a não palpo e lhe não sacudo a poeira dos preconceitos; mas se chego a convencer-me, o systema de duvidar não póde tanto comigo, que, por amor de seita, hesite em crer que ha princezas não refesteladas em almadraques de setim, princezas que não disputam ás nações pobres a enxerga dos desherdados, para quem o dormir é a consolação da fome.

D'este phraseado bem é de perceber que o meu interlocutor não erguia mão de sobre a mais singela resposta sem lhe esponjar exordios para discurso sedicioso.{14}

Não inquiri quem fossem os ricos e fidalgos pretendentes de D. Maria José de Portugal; quanto, porém, aos concorrentes litteratos, desejei, por affecto á classe, reconhecer os meus collegas, ambiciosos de se aparentarem tão affins com a casa reinante. Satisfez-me a curiosidade o meu amigo, nomeando um poeta de piano, um prosador de calendario, um redactor do Jardim das Damas, charadista historico dos almanaks de Castilho. D. Maria José havia recusado as mãos d'estes litteratos pobres assim como já tinha recusado os pés d'alguns capitalistas.

E acrescentou José Parada:

—Um homem que morre por ella é aquelle Raul que lá ficou na loja. Ali tem vossê um rapaz que ha-de herdar mil e duzentos contos. A figura é correcta, não acha? Dá jantares, e empresta dinheiro aos convivas insoluveis, que o lisongeiam e escarnecem alternadamente. As mulheres, que o amam, são tantas como as abelhas á volta d'um favo que tem dentro a essencia de todas as flores de mil e duzentos contos. Pois sabe que mais? quer um milagre em pleno seculo XIX? A luveira repelle com fidalga delicadeza, e ouve com supremo desdem a apotheose dos milhões do conde de Baldaque. Não é isto, em tempos de infame positivismo, um caso assombroso?{15}

E concluiu emphaticamente:

—Quando as filhas dos marquezes, com dezoito avós aforados, não se desaforam, confundindo nas veias dos filhos o seu sangue ostro-godo com a lama dos argentados escapados ao cruzeiro, não é de espantar que a obscura filha de um principe, pobre e chasqueada, recuse abastardar a sua regia stirpe, adjudicando-se ao ouro de um plebeu? Devo repetir-lhe que desprézo o prejuiso das distincções, posto que procedo de avós honrados no serviço da patria; entretanto, se os instinctos fidalgos alam o espirito ao de cima das idéas villissimas d'esta quadra de chatins, eu me curvo então, repassado da religiosa reverencia, e comprehendo que a nobreza das indoles não é phantasmagoria obsoleta; será antes divina loucura, se de uma parte reluz a pobreza radiosa com a sua aureola do trabalho humilde, e da outra rutila a fascinação explendida dos milhões.

Puff!—disse eu entre mim—ou mais exactamente, disseram dentro de mim o pedaço do Falstaff ao pedaço do Sancho.

Aquelle puff, interpretado pelos glossologicos da ultima camada, quer dizer: «Bem me fio eu em ti e n'ella!»{16}
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