—Não conhecia—respondeu a luveira—; mas reconheci agora esta senhora que algum tempo me leccionou em francez, no mesmo collegio onde ella foi educada. Alguem disse ao snr. Tavares que V. Ex.ª me honrava com a sua amisade; e este senhor, carecendo d'um empenho para o snr. conde, procurou-me, e agora mesmo começava a expor a sua pretenção.{164} Estava dizendo o snr. brigadeiro que não sabia que destino havia de dar áquelles quatro meninos, seus netos... Queira continuar, snr. Tavares...

O ancião, tomado de sobresalto, acanhou-se na presença do millionario. O pejo e a dignidade empéciam-lhe a eloquencia da palavra, realçando-lhe a do silencio. O conde olhou na face das creanças uma por uma, chamou-as para si, e disse brandamente:—É necessario fazermos homens estes pequerruchos... Então que querem ser? Provavelmente generaes. Quasi todas as creanças querem ser generaes...

—Seduzidos talvez pela fortuna militar do avô...—interrompeu Tavares; e continuou animado pela communicativa lhaneza do millionario.—O que eu muito desejo obter do valimento de V. Ex.ª, mediante a protecção d'esta senhora que bondosamente nos recebeu, é que os meus quatro netos sejam recebidos em algum azilo de infancia desvalida. Eu já requeri ao actual governo, documentando o requerimento com os meus serviços de soldado, desde 1801 até ao anno em que eu devia ter desertado da bandeira jurada, para estar hoje na alta posição onde subiram os meus camaradas desertores. Escravo da obediencia e da disciplina, segui os meus generaes{165} e acabei a minha carreira onde a honra me fez parar. Ora, se a extrema da honra foi ao mesmo tempo para mim o começo da penuria, isso é questão que não vem ao ponto, nem que viesse eu importunaria V. Ex.ª com queixumes e lastimas. Requeri, pois, pedindo a admissão de meus netos no collegio militar. A absurdeza do pedido era pelos modos tamanha que o meu requerimento nem sequer mereceu a consideração de ser indeferido. Fechadas as portas da justiça, bati ás da caridade. É V. Ex.ª, snr. conde, o bom anjo que sahiu a escutar os meus rogos, e...

—Muito bem...—obstou o conde, amargurado pelas lagrimas do velho.—Tenho entendido que V. S.ª deseja que os seus netos sejam recebidos em algum estabelecimento de educação... Ámanhan, á hora da tarde que lhe convier, queira enviar-m'os a minha casa...

O conde affagou as faces dos meninos, que lhe beijaram as mãos, sorrindo para elle com a graça do infantil amor que vem do coração das creancinhas aos labios que ainda não sabem agradecer. Depois, ergueu-se; apertou francamente a mão do venerando veterano; cumprimentou-lhe as filhas, que o contemplavam com os olhos anuviados de lagrimas;{166} e despediu-se de D. Maria José, que o fitava com estranho e amoravel olhar.

Ao entardecer do dia seguinte, Christovão Tavares entrou na loja da luveira impando de cançasso e exultação. Contou que o snr. conde o mandára entrar com os meninos para a sala, onde elle estava com um sujeito, a quem dissera:—Aqui estão os seus alumnos.

—Era o director d'um collegio de primeira ordem—ajuntou o velho.—O snr. conde enviou os meus netos a um collegio, minha senhora, com ordem de os proverem de roupas abundantes, de todo o enxoval prescripto aos meninos ricos. Depois, os pequenos e mais eu e o mestre entramos na caleche do snr. conde, e fomos a minha casa despedil-os das tias que choravam de contentamento. O generoso moço disse-me á sahida que fosse todos os mezes ao escriptorio d'um cambista á rua dos Retrozeiros, e que hoje mesmo lhe apresentasse um bilhete que me deu. Eu estava por tal maneira aturdido e embriagado de felicidade, que nem sei se lhe agradeci... Os desgraçados, minha senhora, quando de repente se acham a respirar uma atmosphera que não é a sua, suffocam, ouram, e não se acham em si mesmos, no seu habitual viver de escura cerração!... Fui á rua dos Retrozeiros, apresentei o bilhete, e recebi cem{167} mil reis! Eil-os aqui, snr.ª D. Maria! Cem mil reis para cada mez! E quatro netos no collegio a expensas d'aquelle anjo que a Providencia divina mandou travar a roda da minha desfortuna! Veja isto, minha querida senhora! Se eu me não affizer a esta luz que me alumia o fim da existencia, receio enlouquecer de alegria! Mas tanta felicidade é a V. Ex.ª que a devo...

—A mim, snr. Tavares?! pois que fiz eu?

—Que fez, meu Deus?! Recebeu-me na sua casa; olhou compassivamente para minhas filhas, disse palavras amorosas aos meus netos, e quiz que o snr. conde nos visse atravez do seu coração... Oh! eu creio que este milagre o fez a piedade abraçada ao amor... Quem nos deu o pão abundantissimo, o vestir, a casa com ar e sol, o acordar alegre sem o fantasma da fome diante, o futuro das creanças... quem foi senão a... futura condessa de Baldaque?

Ao proferir as ultimas palavras, o velho pegára convulsante da mão de D. Maria José e collára n'ella os labios tremulos.