Visconde
Eu não podia affrontar-me com o homem que eu deshonrara. Criminosos como eu aceitam uma bala, não aceitam um contendor no campo da honra. Matam-se, não se desaffiam taes homens. A sociedade quereria que eu apontasse um florete ao coração do marido de Martha? Se eu o matasse atenuaria a minha baixeza com esse acto de deshumanidade?.
José de Sá
Mas a sociedade, quando vê os delinquentes na tua condição, pergunta como é que expiam.
Visconde
Essa pergunta me fazes tu em nome da sociedade?
José de Sá
Não: se eu te interrogasse, visconde, seria por minha conta. A sociedade creio eu que não te pergunta nada. Dá-lhe bailes; que a sociedade{146} troca por isso o prazer de te diffamar. A sociedade em quanto dança não dilacera reputações. Evita, quanto puderes, ser desgraçado e pobre. Isso é que se não perdôa. Ainda que os remorsos te cortem o coração, sê tu rico, e verás que a sociedade conspira em te distrahir com o espectaculo da farça humana em que os truões sacodem os cascaveis para que não ouças os gemidos da tua consciencia.
Visconde
Eu não dou bailes; dá-os meu filho que é moço, e não se priva dos gozos da mocidade porque me vê chorar. José de Sá, tens sido duramente severo comigo. Não me queixo. Generosamente me apertaste a mão; e eu não merecia tanto. Se alguem houvesse compaixão de mim, não serias tu por certo, que foste amigo de Silveira e o confidente de afflicções superiores ao entendimento de desgraçados maiores do que eu. Chorei-os ambos, porque os matei ambos. Peguei d'aquelles trez entes cheios das alegrias da honra e do amôr...{147} e atirei-os á voragem do opprobrio e da morte... Despreza-me tu, desprezem-me todos, que eu não tenho rehabilitação... não posso arrancar-me das prezas implacaveis do meu remorso. (Cahe extenuado numa cadeira).