Insisto em affirmar que meu pae é cavalheiro. Não ouso condemnar as fragilidades d'elle. Limito-me a lastimal-as, tanto mais que nenhum homem, virtuoso ou vicioso, educou um filho com tão elevados conselhos e exemplos.

Jorge (sorrindo)

Exemplos!

Rodrigo

Nunca deslizei da linha da honra que meu pae me traçou. Adivinhei que elle havia soffrido uma cruel catastrophe em sua mocidade, por que no vigor da vida o conheci triste, apartado da sociedade, sombrio, e só. Ha trez dias soube a causa da sua longa expiação—expiação{177} emfim acabada, porque sei que meu pae chegou ao termo de sua funesta carreira, e estende os braços para a bemaventurança da sepultura. No entanto, se elle podesse desafogar-se das dores mortaes que o abafam, V. Ex.ª encontraria deante da sua mal empregada bravura o homem que lhe não fugiu; mas fugiu á horrenda contingencia de matar o homem que tinha offendido. Permitta Deus que meu tão honrado quanto infeliz pae restaure, pouco que seja, de suas forças, e V. Ex.ª conte com um peito bem a descoberto do seu ferro, se á sua vingança se fazem necessarias algumas gottas de sangue.

Jorge

Regeito. Eu quero que seu pae viva.

Rodrigo

Sem embargo d'essa sarcastica concessão de vida, cumpre-me dizer ao snr. Silveira: primeiro, que tenho um só nome, e que o não mudarei quando houver de insultar o mais{178} valente, ou o mais covarde; segundo, que, morto meu pae da angustia que o abateu, hei de obrigar o seu indirecto assassino a retirar de sobre a sua campa as injurias cuspidas sobre as cans d'um velho, cujo crime, longamente expiado, o havia posto na posição alta onde os vituperios de V. Ex.ª não deviam chegar; terceira, que sinto um verdadeiro prazer na hypothese de que o snr. Silveira terá a coragem que inculca.

Jorge