Ajudai-me... erguei-me... Forças, vida, um dia de vida, meu Deus! Um dia para chorar comtigo, Leonor... Olha que tinhas a mais amoravel e extremosa das mães... o coração mais sancto do amor maternal. Formosa como tu... da tua edade... respeitada e adorada; contente, feliz, virtuosa, boa... Mas... matei-a... Não foi teu pae que a matou, Leonor... Fui eu!... O veneno que lhe fazia espumar sangue, e ranger os dentes convulsos, e rojar-se no chão, e atirar-se a gritar para o teu berço, esse veneno fui eu que lh'o vasei no peito... Eu fui quem a despenhei dos respeitos publicos para a deshonra irrevogavel, da mais rica e florida existencia para um torrão desconhecido do cemiterio, para a valla dos pobres... e levantei-lhe como monumento uma memoria infame! Fui eu... eu fui o algoz... (Resvala á cadeira, soluça e prosegue:) Meus filhos, ide, ide... Pede-vol-o com as mãos erguidas o penitente na agonia... Ide pedir a Jacome da Silveira... Vae, filha, vae pedir a teu pae que me perdôe. Dize-lhe{208} que é um agonisante que lh'o pede... Um homem que até esta hora invocou a morte, e a morte, a enviada de Deus, não quiz derrubar-me sem este grande trance. Vae, Leonor, vae dizer a teu pae que eu morro. Apaga-lhe o fogo da ira com as tuas lagrimas... Chora-lhe no coração, que a piedade renascerá, e o perdão virá a tempo de eu poder acabar sem estas angustias de remorso que me...
SCENA III
OS MESMOS, E PEDRO ARANHA
Pedro (a D. Eugenia)
Se V. Ex.ª quizesse sahir á primeira salla, encontraria seu pae.
D. Eugenia
Jesus! Que hei de eu fazer, Rodrigo!{209}
Visconde
Vae... cumpre o meu pedido, Leonor. Dize a teu pae que Heitor de Vasconcellos lhe pede perdão.