VISCONDE E RODRIGO
Visconde (com gravidade)
Agora, se te apraz, Rodrigo, argumentaremos a respeito de bailes; e ficas avisado para, na presença de tua mulher, nunca me desafiar a discutir comtigo em assumptos de corrupção social. Agradece tu ao acaso a santa ignorancia que Eugenia te trouxe do recolhimento. Não a illustremos; ouviste, Rodrigo? Não a illustremos... Bem vejo que estás no proposito de descondensar as trevas que a separam das brilhantes damas que decoram as tuas salas. Sei isso. Queres o diamante lapidado; queres que elle refulja á luz dos bailes. Vaes entrando com ella por estas portas do grande mundo, por estes bazares onde a mercadoria humana se assoalha; onde os corações como que andam á vista nos seios descobertos; onde, emfim, as almas se caiam e purpuream como as caras...{29}
Rodrigo
Jesus! que imaginação! Meu pae está illudido com a sociedade.
Visconde
Illudido, eu! Pois... quem cuidas que eu fui?!
Rodrigo
Sei que meu pae foi um rapaz distincto, um cortezão, um modelo de fidalgos; sei que meu pae se estremou na sua sociedade, e de certo lá não achou as demazias de desmoralisação que se lhe figuram na sociedade de hoje. Suppondo que nos salões de ha vinte e tantos annos, meu pae encontrou almas viciosas e pessimas, quantas se lhe não depararam virtuosas e optimas? Se eu lá procuro exemplo de bons costumes em moço rico e considerado, não encontro meu pae?