Não tem romance, nem sequer lyrismo a historia do meu casamento.
Pedro
Não?!
Rodrigo
Vê lá se este casamento recende alguma poesia. Meu pae, estando eu em Beja, mandou-me procurar no recolhimento da Piedade de Evora duas senhoras nossas parentas, e que lhes lembrasse o seu antigo primo e amigo, e offerecesse a nossa casa e os nossos haveres, se ellas carecessem de soccorros. Fui a Evora,{44} perguntei no recolhimento pelas senhoras, e soube que ambas eram fallecidas, e que na cella onde tinham morrido vivia uma sobrinha d'ellas, muito doente do peito e para pouca vida. Vai vendo que funebre exordio!
Pedro
Sim: temos já duas mortas, e uma moribunda! Entras no templo de amor pelo cemiterio!
Rodrigo
Mandei pedir a minha prima se me concedia o favor de a cumprimentar. Permittiu que a visitasse no dia seguinte. Fui com um exquisito alvoroço e presentimento. Appareceu uma formosa menina com as rosetas da tysica nas faces e um sorriso de santa, como se a sahida d'este mundo lhe désse alegria. Conversamos muitas horas. Contou-me que era orphan, e tinha um pequeno patrimonio, de cujo rendimento se sustentava e mais a sua Eugenia, um anjo que Deus lhe mandára,{45} como compensação, que em poucos annos a indemnisasse da felicidade e amor, em desconto do muito que poderia viver. Visitei-a segunda vez. Apresentou-me então a sua amiga. Não trato de te incutir espanto da sua formosura. Eugenia tem a belleza reflexa do ideal incorporeo e indefinido. O que muito me impressionou, e mais do que a belleza, foi o ar de bondade e melancolia, uns olhos que pareciam estar sempre lagrimosos e fitos em uma grande calamidade, um scismar e concentrar-se sem affectação, sem sequer attender á presença de um homem que poderia ter a vaidade de fazer-se attendivel. Participei a meu pae o que tinha visto. Recommendou-me que convidasse de sua parte minha prima Celestina para passar-se do convento aos ares saudaveis de nossa casa em Traz-os-Montes, e lhe pedisse que levasse comigo Eugenia. Mostrei a carta de meu pae. Celestina pensou tres dias, e aprestou-se para a jornada com a sua amiga e as suas criadas.
Pelo caminho me foi contando minha prima a breve historia de Eugenia. Uma senhora de Lisboa entrou no recolhimento da Piedade{46} de Evora com uma menina de tres annos, a quem chamava sobrinha. Esta senhora vivia com poucos meios, e morreu não deixando alguns, quando Eugenia contava dezeseis annos. Minha prima levou para a sua cella a desvalida menina, e repartiu com ella a sua pensão. N'este sereno affecto encontrei as duas orphans.