Visconde (lendo sempre. Declamação vagarosa)

Quando a viscondessa quizer contar-lhe as muitas historias que ella deve saber da vida de Lisboa, mostre-se a minha filha inteiramente descuriosa de as saber. Esteja de prevenção. Eugenia, acautele-se das mulheres que não tem outra virtude sabida senão a de murmurar dos vicios alheios. A viscondessa creio eu que não murmura. Hypocrita nunca ella foi. Mas conta, folga de contar: tira dos bastantes annos que tem o partido possivel, como quem se preza de conhecer o romance dos ultimos 30 annos de Lisboa. Além d'isto, ha de a minha filha observar que certas damas contam historias de pessima moral acontecidas com muitas das suas amigas. O seu industrioso plano é dar a perceber que o vicio está por tal forma naturalisado que já não ha razão para espantos nem sequer para censuras. Ora eu muito queria que minha filha soubesse de mim sómente que na sociedade habitual da viscondessa de Pimentel as theses de moral são assim todas pouco mais ou menos. (Suspende-se subitamente. Vivamente{83} agitado, fixa attentamente o que está lendo, emquanto Eugenia se intretem tocando em qualquer adorno das mezas. O visconde serena-se com grande exforço e disfarce. Depõe o jornal, e toma o chapeu. D. Eugenia tem reparado na commoção do visconde). Até já, Eugenia.

D. Eugenia

O pae está tão pallido!

Visconde

Pallido! Não sei o que seja!..

D. Eugenia

Sente-se doente?

Visconde

Não, minha filha... Isto são accessos de hypocondria... Vou tomar ar ao jardim. Volto já. (Sáe).{84}