D. Eugenia

Não é romance; é aqui. (Indicando-lhe o alto da primeira columna).

Rodrigo

Aqui na Correspondencia de Pariz? (Ella faz um gesto affirmativo) Pois que é? (Correndo com os olhos alguns periodos, balbucia inintelligiveis palavras, e depois lê): «Contar-lhe-hei um successo digno de attenção, e d'algum modo romantico, se bem que procede d'um lance de tragedia.» É aqui?{87}

D. Eugenia

É.

Rodrigo (lendo)

«Um cavalheiro portuguez, que hontem encontrei no Bois de Bologne, me mostrou um sujeito que ia passando sósinho, triste e vagaroso. E depois me contou o seguinte caso que teceria o enredo de um bom romance, se cahisse na officina de Alexandre Dumas. Ha duas duzias de annos, pouco mais ou menos, um homem de consideração, residente em Lisboa, de nome Jacome da Silveira, casado com uma distincta e formosa senhora, chamada Martha de Villasboas, cego pela paixão feroz do ciume, matou a espoza. Poucas horas depois, apresentou-se ao governador civil declarando que matára sua mulher. Interrogado sobre os motivos do crime, respondeu que não tinha obrigação, vontade, ou necessidade de declarar o crime da senhora morta, porquanto já estava castigada, e a memoria d'ella não esperava da sociedade estigma nem rehabilitação. Perguntado{88} como é que se apresentava, respondeu: «Como homem que matou». Na qualidade pois de homicida voluntario com premeditação foi Jacome da Silveira encarcerado, julgado e sentenciado em 20 annos de degredo para Africa, em attenção não sabemos a que circumstancias attenuantes. A sociedade de Lisboa, o jury, e o juiz que o julgaram e sentenciaram sabiam de sobejo que D. Martha de Villas-boas morrêra criminosa. O cumplice da adultera éra conhecido. Constava que o réo encontrára superabundantes provas do crime, as quaes valeriam tanto na consciencia do jury como o flagrante delicto. Todavia como Silveira teimou pertinaz e loucamente em não declarar o crime de sua mulher, a condemnação éra inevitavel, a não estar o jury, como não estava, á altura da tão infeliz quanto generosa alma do réo. Jacome da Silveira era rico. Todos suppozeram que elle se transferisse d'Africa para onde bem quizesse, sobrando-lhe recursos com que armar navio que o transportasse á Europa ou America do norte, a não querer antes levantar-se{89} com o senhorio de Angola e proclamar-se rei d'áquem e d'alem mar em Africa, etc. Estas conjecturas eram indignas do nobre e excentrico animo do condemnado. Jacome cumpriu a sentença; completou 20 annos de degredo; e, cobrando alvará de soltura, passou ao coração da Europa, e nomeadamente ao Bois de Bologne, onde hontem o vi. Tanto quanto de relance o pude vêr, deixou-me uma impressão melancolica. «N'aquelle rosto de bronze, transluzia d'esta historia a pagina que escreveram lagrimas choradas por espaço de 24 annos. Na historia ha duas victimas, e um infame. D'este personagem não lhe sei dizer o nome. Esse talvez tenha envelhecido socegadamente em Portugal, e esteja lendo com olhos enxutos esta noticia». (Declama): Mais nada. Saibamos agora porque choraste, Eugenia?

D. Eugenia

Porque chorei!? não foi tão infeliz e triste a sorte d'esta senhora?!{90}