Viscondessa
Satyrizar-me, porquê?
José de Sá
Pois uma snr.ª toda poesia, toda flôres, toda céo, a combinar com as facções o arranjo d'um deputado, ha ahi cousa que deva recear-se mais da satyra bocagiana?.. Uma dama politica! Uns dedos finos e côr de rosa, affeitos a volver as paginas do livro do coração, a profanarem-se na entrega das listas de costaneira! Ó muito illustre e muito presada minha amiga, posto que V. Ex.ª qual outra Judith venceu o Holofernes administrativo de Setubal, não posso deixar de lhe dizer que se V. Ex.ª e as suas correligionarias começam a fazer politica, eu e os meus correligionarios{102} teremos de fazer meia. Este paiz é muito pequeno, e a custo dará politica para o sexo feio.
Viscondessa
Já vejo que o snr. conselheiro continua a considerar a mulher uma incapacidade para os actos do espirito.
José de Sá
Não minha snr.ª Eu sou obrigado a confessar que ha senhoras intelligentissimas e com grande capacidade.
Viscondessa
Mas com intelligencia sómente honorifica. Concedem-nos a honra da intelligencia; mas sem exercicio... Obrigadissimas, rei da creação, obrigadissimas... (Reparando) Ah! ahi vem o Jorge de Mendanha, conhece?{103}