Viscondessa
Então que sabe? Esta ignorancia é singular, por não dizer irrizoria! Querem vêr que a candura d'este varão se está insurgindo contra uma historia de corrupção social.
José de Sá (sorrindo)
Isto não é candura, minha snr.ª Eu estou corrompido bastantemente para não ser tolo.{126} Na nossa sociedade, minha viscondessa, as canduras apodreciam antes de florir innocencias tamanhas. Declaro a V. Ex.ª que não sei o que é feito da filha de D. Martha de Villasboas. Mas que insistencia, senhora! Tendo V. Ex.ª tantas flôres e tantas coisas cheias de vida e de luz no seu espirito; para que ha de estar enluctando a sua gentil conversação com umas memorias em que ha lagrimas a respeitar e infamias a perdoar?
Jorge (severamente)
A perdoar!
Viscondessa
E eu accuso alguem! O snr. está exquisito! Eu não sei se a Humanitaria dá medalhas aos sentimentalistas como V. Ex.ª Este snr. se vir representar o Othello de Shaskspeare sáe do theatro para não vêr historiada a infelicidade de Desdemona e a colera barbara do marido. É capaz de os ir accusar á policia!{127}
José de Sá
Eu não me retirava do theatro, nem iria accusar á policia as adulteras mortas visto que não accuso as vivas; não sahiria do theatro; mas em vez de olhar para o palco, olharia para as snr.as que contemplam sem impallidecer o horrendo trance da morte de Desdemona; e, na seguinte noite, irão vêr no mesmo palco representar uma comedia em que se zombe d'um marido deshonrado, e se mova a piedade das plateias a favor da adultera e do seu cumplice.