Emquanto Beatriz se vestia de amazona para cavalgar, Nicoláo disse ao sogro:

—Sinto, meu primo e amigo, sinto amargamente a necessidade de te dizer que me fazes soffrer mais do que pode a minha paciencia por causa de teu sobrinho. Para mim e para tua filha é extrema a satisfação e honra que nos dás com a tua convivencia; mas tambem é certo que nos amarguras com a excessiva intervenção de tua vontade em nossas acções e amisades. Eu comprehendo bem que aborreças teu sobrinho; porém, confesso-me insufficiente para avaliar o direito com que tens embaraçado que eu o receba em minha casa, e lhe prove que o estimo por gratidão e parentesco. Peço-te encarecidamente que absolvas estas reflexões, e por tua parte modifiques esse irreflectido zelo de minha casa, onde eu não receio que entrem homens de costumes soltos, porque sei eu castigal-os, quando elles se esquecerem do que devem á sua dignidade e á minha.

Martinho Xavier lançara-se sobre uma cadeira, e escondera o rosto entre as mãos, soltando estas gementes palavras:

—Meu Deus, meu Deus!

—Que tens tu? perguntou Nicoláo commovido.

Beatriz entrou na sala, e viu o pae enxugando as lagrimas, e o marido inclinado á face d’elle.

—Que é?! disse ella agitada.

—Não sei...

—Vão, e adeus!—murmurou Martinho, erguendo-se com energia.

—Ficas em Villa Real?