—O meu criado leva um mandado de despejo em vinte e quatro horas.
—Estás a mangar!...
—Ninguem manga com o dinheiro, primo Almeida. Imagina tu que no quinto, ou quarto andar do predio mora um empregado publico, que vae rebater duas cedulas para pagar um semestre da casa, que alugou por cincoenta mil réis. O meu criado offerece-lhe quarenta soberanos, e diz-lhe: «rua, dentro de vinte e quatro horas!» Antes das doze, o empregado publico saí com seis cadeiras e duas panellas, e eu entro com esta ponderosa alfaia de um coração em chammas. Impugna lá se podes!
—E depois?
—Essa pergunta é um disfructe! Depois a casa tem janellas, e eu tenho olhos, e Beatriz, essa então bem sabes que magicos, que peregrinos olhos tem! Deixo as omissões á tua discrição. E agora vai-te embora que eu vou dar credenciaes ao criado. Á noite vou a tua casa.
O ladino agente voltou antes da noite, com a certeza de ter as chaves do terceiro andar na casa defrontante com o hotel, ao escurecer do dia seguinte. Apresentou o titulo de sublocação, e o recibo do signal.
Fechou-se Raphael n’uma sege, e foi ao largo do chafariz de Andaluz passar a noite com o primo Almeida.
Estava Margarida Froment ao piano. Recebeu o apresentado friamente, e disse-lhe pouco depois:
—Ricardo passou com vossa excellencia algumas horas do dia...
—Não ha duvida, minha senhora.