Raphael lembrou-se do verso de Molière, que já occorreu ao leitor e sorriu-se para dentro.

Margarida vibrou vertiginosamente o teclado do piano e levantou-se a aspirar o aroma de umas flores, que adornavam o marmore da jardineira.

Raphael ia-se aborrecendo da sua posição, quando Margarida, brincando com uma camelia, deu dois passos com um meneio de muito garbo, e disse ao hospede com requebro maviosissimo de voz:

—Vossa excellencia veiu a Lisboa buscar seu primo?

—Não, minha senhora: o meu prazer seria trazer-lh’o, se elle estivesse longe de vossa excellencia.

—O tom da lisonja esconde uma desconsideração. Perdoo-lh’a, porque as mulheres na minha posição nem sequer merecem que a desconsideração se vista de palavras usadas nos salões.

—Oh! minha senhora! acudiu Raphael, balbuciando.

Entrou um escudeiro annunciando uns sujeitos da primeira plana genealogica.

Margarida pôde ainda accrescentar a meia voz, em quanto Ricardo saiu ao encontro dos cavalheiros:

—Está enganado, senhor Garção! eu não espero que me abandonem.