—Quem dá aqui ordens, sou eu! disse jovialmente Raphael. Sôr escudeiro, mande pôr a ceia, se ha ceia n’esta casa. Os melhores vinhos! ordem ao escanção!
Sentaram-se á mesa. Ricardo emborcava á competencia com o hospede os licores mais excitantes.
Raphael comeu á proporção do liquido. Ricardo difficilmente deglutia, e cada bocado lhe anceava entalado. A revezes, aguavam-se-lhe os olhos. O de Fayões exclamava:
—Execração e bebedeira estupida áquelle que puder chorar coisa que não seja vinho!
Antes de finda a ceia, Ricardo perdêra as côres rubras da vinolencia, e desfallecêra prostrado em serena embriaguez. Garção e dois criados transportaram-n’o ao leito.
A embriaguez do hospede era de outra especie: carecia de ar e agitação, de algum enorme desatino ou façanha de estrondo. Crepitaram-lhe no peito fumegante umas lavaredas de amor incendiario a sua prima. A cabeça alcoolisada chammejou. Sobresaltou-o uma vertigem. A sége estava ás ordens. Mandou que a levasse um raio á porta do hotel de Italia. Chamou o criado. Era meia noite. Perguntou-lhe se Nicoláo ainda estava. Disse o criado que elle dera ordem ao bolieiro para chegar á uma hora. Raphael mandou picar para o largo do Corpo Santo. Apeou. Entrou no pateo do hotel francez. Subiu ao terceiro andar. Abriu a porta da sala: era Beatriz que esperava e suppunha seu marido. Raphael entrou, sem dar tempo a que o vissem os criados. Era a primeira vez que ali entrava. Beatriz caia-lhe convulsa de medo nos braços; e elle abrazava-lhe a cutis livida com os labios, que reviam lume.
—Nicoláo não póde demorar-se, ó primo!... tu perdes-me; eu morro ás mãos d’elle!—murmurou abafada Beatriz.
—Nicoláo vem á uma hora.
—Por que o sabes? onde está elle?
—Com Margarida, no hotel em que eu morava.