Os espinhos do remorso quebrára-os o marido por mão de Margarida Froment. A natureza moderna tem as coisas assim concertadas, para se não renovarem as penitentes da idade media. É verdade que ha menos santas; mas tambem ha mais quem incense as peccadoras. O inferno lucrou, e o ceu creio eu que perdeu quasi nada.

Á uma hora, saiu Nicoláo, e entrou o criado de Raphael com um bilhete que era uma lamentação, aprasando para as dez da noite o ensejo de poder verter-lhe no seio lagrimas que o suffocavam. Seguiram-se horas de enlevo em mutua contemplação. Por volta das trez da tarde, Beatriz parecia desafogada das lagrimas impertinentes: surria, tregeitava, inventava mimicas eloquentissimas do coração. Entrou o marido beijando-a carinhoso. Raphael jantou, dormiu, sonhou phantasias deleitosas que eram, ainda assim, pallidos arremêdos das alegrias verdadeiras.

Ao fechar-se a noite, foi o morgado de Fayões á casa de Andaluz. Pagou a Ricardo de Almeida a conta que o mordomo lhe apresentou. Fez novas exortações á coragem vacillante do primo, incitou-o a gosar-se de sua mocidade, recobrando-se das duas primaveras desfloridas. Affirmou-lhe que o desastre, visto a dois mezes de distancia, havia de afigurar-se-lhe um manancial de venturas subitamente aberto no seio da desgraça.

Ao outro dia, Ricardo de Almeida embarcou para o Porto com o seu mordomo, e d’alli, fechando os olhos a todos os logares despertadores de memorias saudosas, passou á sua casa do Pontido.

As tias não sairam a recebel-o nos braços porque a noticia inesperada abalou-as de modo, que desfalleceram abraçadas uma n’outra. Ricardo beijou as mãos das transportadas senhoras, que logo alli prometteram erguer um altar na capella da casa consagrada ao seu parente S. Gil.

Encerrou-se o morgado. A sua culpa estava expiada. Margarida fôra ingrata. A Providencia seria injusta, se prolongasse o supplicio do homem, que nenhumas dôres causára com o seu desvario. Se déra escandalo, os escandalisados escarneciam-n’o e vingavam agora a moral publica. Foi por isso que o ceu se abonançou. A solidão restituiu-lhe, a pouco e pouco, a memoria dos seus prazeres simples. Attentou na delapidação dos seus bens. Desempenhou os hypothecados, restaurando rendas bastantes a um decente passadio.

Padre Ambrosio, o virtuoso egresso, perdoára-lhe o descredito em que tinham andado na Foz as suas vestes, roçadas pelas sedas da pactuada do inferno. Havia elle sido chamado para Mirandella, onde tinha um irmão, chegado do Brazil, com centenares de contos. Foi visitar o irmão, e sobrinhas; mas voltou ao Pontido, cuja casa lhe déra, em 1833, hospitalidade de parente, e disvelos de familia muito sua. O brazileiro foi visitar o irmão, e levou comsigo uma das tres filhas. Ricardo de Almeida quiz honrar o irmão de seu mestre, e saiu a recebel-o no pateo, e a receber na portinhola da liteira a mão da brazileira. Depois, voltou ás suas graves cogitações, aos longos passeios nas montanhas do Alvão, ás fadigas da caça, e aos chumbados somnos das noites infinitas do inverno.

A brazileira via sorrir aquelle mancebo pallido com a graça dos infelizes que não podem queixar-se. Perguntou a D. Sancha o segredo d’aquella serena e affavel melancolia. O egresso fez uma narrativa dos infortunios do fidalgo, com tanto engenho que não feriu de leve o pudor da sobrinha.

Laura, a brazileira, ficou amando o moço triste. Despediu-se d’elle sem poder fital-o, e bem-disse a lagrima que a denunciava.

O irmão do padre Ambrosio saiu encantado da lhaneza e cordealidade com que fôra acolhido por familia tão illustre. «Se eu fosse fidalgo, escrevia elle ao irmão, daria a minha Laura e cem contos de réis a esse bello moço, que me captivou, e fez para sempre triste a minha filha. Alguns meus amigos e companheiros de trabalho e fortuna teem comprado a fidalguia para hombrearem com as raças nobres; mas eu tenho sido o primeiro a rir d’elles, e serei o ultimo a comprar nobreza, quando todos formos nobres, o que vem a succeder, se não houver diluvio por estes vinte annos. Não digas isto ao teu discipulo, que não vá elle afugentar á minha custa a sua tristeza. A tanto não me sacrifico eu, nem a nossa Laura quer que a sacrifique.»