7.ᵃ Queria conversar, queria gente, queria dar jantares, e fazer brindes mysteriosos a Beatriz; mas o relacionar-se era victimar a sua felicidade ás suspeitas de Nicoláo de Mesquita.

Estas razões encadearam-se no fim do primeiro mez, e estavam já na forja os élos de outras sete, quando Nicoláo de Mesquita alugou e mobilou um palacete no largo de S. Sebastião da Pedreira.

Raphael melhorou de vida. Livrou-se do terceiro andar. Dormia nove horas. Comia o seu jantar em bom estado. Além d’isto, morava perto de Beatriz, e saia de noite a beber bons ares pela estrada de Palhavã até ao Campo Grande.

De mais a mais, Beatriz, perdido o susto, e identificada ao facto assustador, em vez de ir passar as noites com suas primas Camaras ou Mesquitas, descia pela travessa dos Carros, e volitava da sege de praça a uma porta do jardim de seu primo, e ahi se espantava da velocidade instantanea das duas horas costumadas.

Isto durou um mez, a beneplacito do coração de Raphael.

Coincide com esta época o conciso dialogo, que elle teve com o seu anjo mau no final do anterior capitulo, depois de haver lido a carta de Ricardo de Almeida.

O morgado de Fayões ficava em casa, quando sua prima ia ao theatro. Não o affligiam ciumes, nem saudades, nem anceios de vel-a sobreluzir entre a constellação das estrellas de S. Carlos, as quaes—digamol-o de fugida—se não tivessem luz propria, seriam invisiveis á luz da sala.

O que elle queria era ir por si, e não por ella.

Reflexionando comsigo, dizia elle:

—O mais aperreado dos tres sou eu. O marido está com Margarida Froment, nectarisando a existencia com as delicias da segunda edição do seu amor. Beatriz está no theatro a vêr-se formosa na face das outras, e a saborear-se nas melodias de Verdi. Eu estou aqui a resolver-me do sophá para a poltrona; e, se quizer ao menos vêr o ceu estrellado, quando não ha nuvens, hei de bater os dentes de frio por essas ruas, onde não conheço viva alma!