Nicoláo travou da alavanca, e tentou mettel-a ás junturas argamassadas do jazigo da esquerda, onde estavam as solitarias cinzas da unica adultera d’aquella familia. N’este esforço e reluctancia com as difficuldades de abalar a pedra, extenuou-se, perdeu o alento, e caiu de rosto contra o degrau do altar, exclamando vozes inintelligiveis.
As velhas senhoras, o filho, os mestres e os criados acudiram á capella, e tomaram-n’o em braços. Nicoláo revolvia a lingua na abobada palatina, e tirava uns sons roucos, arripiadores, como gritos de ave nocturna.
Chamaram medicos e sacerdotes. A medicina capitulou de paralisia o incuravel ataque. Os padres ungiram-no, que a lingua não podia accusar as angustias da alma.
N’uma lucta de spasmos e ancias se desprendeu, ao fim de vinte e quatro horas, o atormentado espirito de Nicoláo de Mesquita.
Ao cair a pedra sepulcral sobre o cadaver, justaposto aos ossos de Beatriz de Sousa, a piedade impõe-nos silencio. Vimos o que é a justiça de Deus na terra; n’outros mundos é-nos defeso devassal-a.
Martinho de Mesquita foi tutellado de Ricardo de Almeida, um dos seus mais proximos parentes, por parte de sua mãe. É hoje marido da morgada do Pontido, filha de Ricardo e Laura.
Ainda vivem os ditosos que o morgado de Fayões invejára nos seus ultimos dias de vida. N’aquella casa ha um só incentivo a lagrimas: é a memoria de Raphael Garção.
Dizem-nos que o filho de Beatriz, desde que ouviu a historia de sua mãe, tem dias de attribulado recolhimento. Possue o retrato d’ella, pendente da manilha, tirada do esqueleto de Raphael, e conservado na casa do Pontido. Uma vez sua mulher surprehendeu-o absorvido na contemplação do retrato. Poz-lhe a mão na espadua, e elle, voltando a bella imagem de sua mãe aos olhos da esposa, disse, banhado em lagrimas:
—Como não havia de perdel-a o mundo, se ella era tão formosa!
FIM