E muitas o amavam, áquem e além Tamega, por essa Gallisa dentro. No entender dos sisudos censores de seus maus costumes, faltava-lhe a fibra susceptivel do coração que se doe das inconstancias d’uma mulher. Em confirmação d’este juizo, depunha o ter ido Raphael para Hespanha em seguimento de uma andaluza, que apparecêra na feira de Santo Antonio em Villa Real, tocando pandeiro e castanhetas. Alguem conjecturou que Beatriz accedêra a casar com o tio por despique do primo; varias senhoras, no proposito de desdoural-a, affirmavam que ella optára pelo mais rico, sem levar em conta a differença das edades, e os dissabores futuros. Tudo isto eram vozes do mundo, que se banqueteava em casa de Martinho Xavier e se enfrascava nos melhores vinhos a brindar o prospero enlace do extremado cavalleiro de Palmeira com a encantadora Beatriz. A verdade, porém, das rompidas intelligencias da menina e de Raphael já está dita: fôra um brincar da borboleta com uma flôr de madre-silva; mais lyrismo não tem anachreontica nenhuma, se a anachreontica fôr das mais honestas.

O morgadinho de Fayões nunca pensára em casar-se. Tinha então vinte e quatro annos; muito dinheiro, muita saude, leitura de Clarisse Harlowe, da Nova Heloisa, do D. João, e outros modelos de algozes de corações. É o que elle tinha lido em dois annos que estivera em Coimbra.

Não obstante, a pureza da filha de Martinho Xavier enfreou-lhe a indole; póde ser tambem que a desconfiança do pae lhe contraminasse algum intento menos honroso. Disputal-a a Nicoláo de Mesquita, sem o proposito de desposal-a, era um desaire; soffrer era uma semsaboria indigna dos Tenorios e Lovelaces e Saint-Preux das suas leituras. Felizmente que a andaluza lhe barateou um sorriso, e encareceu um beijo na feira de Villa Real. Este duro osso do officio irritou-lhe a vaidade. A hespanhola pareceu-lhe uma Esmeralda, como Victor Hugo a encontrára inventada por um escriptor castelhano. Alli por Villa Real andavam uns Claudios Froulos a quererem seduzir-lh’a. Esporearam-lhe o ciume. Não havia que vêr. Seis mulheres bonitas de Chaves, dezenas d’ellas do alto da provincia, duzias de galanteios incipientes e decadentes, todas foram sacrificadas á funambula do pandeiro e das castanhetas.

Varias pessoas lamentaram a sorte d’este mancebo no banquete nupcial de Beatriz e Nicoláo. Os mais penetrativos convivas olhavam de esconso a noiva, e o marido tambem; todavia a menina escutava as lastimas como se as não comprehendesse. O anjo estava como estrangeiro entre aquelle gentio, que fallava a linguagem barbaresca das paixões deshonestas.

No dia seguinte, os esposados foram para o Vidago, com grande comitiva. No trajecto de tres leguas estoiraram constantemente bombardas e foguetes. As festas continuaram na casa de Palmeira tres dias e tres noites. A grandeza de quinze leguas ao sul, e tres ao norte, a entestar com a Galliza, confluiu com suas librés a honrar a mais cheia lua de ambrosia, que ainda tiveram noivos desde que as luas se ingerem ridiculamente nos noivados.

As senhoras do Castello d’Aguiar, tias de Ricardo, saiam da liteira a visitarem o seu parente de Vidago, e a senhora D. Beatriz que ainda era parente d’ellas, em razão de haver casado Mem de Sousa, em 1410, com D. Briolanja de Almeida. Além da etiqueta, moveu-as ao sacrificio poderem fallar do sobrinho Ricardo, e pedirem consolações ao homem experiente.

D. Sancha, assim que o ensejo se lhe ageitou, rompeu em pranto desfeito n’estes termos:

—A felicidade que estaes gosando, sobrinhos, perdemos a esperança de que o nosso Ricardo a venha gosar!

—Que noticias tem vossa excellencia de Ricardo?—atalhou Nicoláo.

—Não nos escreve o ingrato! Ha tres mezes que foi, e não voltou.