Passado o incidente enjoativo da senhora, mediante um copinho de licor de amendoa, padre Ambrosio continuou:

—Omitto a descripção dos outros horrores, que presenciei n’aquelle jantar de canibaes. Eu apenas comi d’uma peça de carne assada, e de um pato, ou coisa que o parecia. No fim do jantar, o senhor Ricardo levou-me para o seu quarto, e perguntou-me por vossa excellencia.

—Por mim! disse Nicoláo.

—Sim, senhor. Quiz que eu lhe dissesse se vossa excellencia tinha casado, ou estava para casar. Respondi-lhe que vossa excellencia andava n’esses preparativos. Ora agora, o que eu não sei é porque elle deu uma grande risada, quando lhe eu disse que as fidalgas tinham mandado pedir ao senhor morgado que empregasse todos os meios para salvarem o sobrinho das garras da franceza! Isso foi um rir, que não tinha fim. Depois, quiz saber o que vossa excellencia tinha feito. Eu contei-lhe a resposta que o senhor morgado dera ás excellentissimas senhoras suas tias, e elle então disse umas palavras, que eu não me atrevo a repetir.

N’este momento entrou Beatriz á sala, e Nicoláo ergueu-se ao encontro da senhora. Visivelmente queria elle rematar alli a exposição do padre; mas o narrador repetiu ainda:

—Palavras, que eu não me atrevo a repetir.

—Vinde cá, sobrinho, ouvide isto...—disse D. Sancha.

—Dispenso saber o que Ricardo disse, atalhou precipitadamente Nicoláo. Em summa, o que eu infiro da narrativa do senhor padre Ambrosio é que meu primo Ricardo resistiu á sua eloquencia.

—Mas que rasão, tornou o clerigo, teria elle para dizer que vossa senhoria é um... não ouso dizer.

—Pois digo eu, ajuntou D. Simôa. O que elle disse foi que o nosso sobrinho Nicoláo era um infame... Vêde vós!