Está a casa de Palmeira sósinha, em meio da sua muralha de cedros e alamos. Rodeiam-n’a por mais longe extensos almargeaes, relvas amenissimas, montados crespos de sovereiros. A estrada passa arredada. Nenhuns rumores do mundo alli vão quebrar os scismadores silencios. Este é o éden, qual preluzira ao morgado nos entresonhos, que lhe adoçavam os aborrimentos do seu viver com a franceza nos arrabaldes do Porto.
Anciára elle então um enlace honesto, uma virgem transferida do resguardo da pureza á adoração da vida conjugal, uma companheira para todas as horas da vida pacifica, doirada de alegrias innocentes, honrada na consciencia propria e no conceito do mundo.
Parece que a Providencia déra tudo, e mais ainda, ao homem que não esperava o minimo das suas modestas, mas tardias ambições.
Para os quarenta annos, uma menina com dezeseis.
Para o coração escalavrado, um coração em flôr apenas desabrochado ao inculpavel beijo de um primo.
Para uma fortuna desfalcada por grandes desbarates, um grande patrimonio de filha unica.
Nicoláo subjugára a mais liberal das fadas, ou pactuára com o anjo das trevas a felicidade d’este mundo a troco da eterna perdição da alma? Nada d’isto. Era a natural absurdeza das coisas sub-lunares, como ellas se nos figuram quando as encaramos superficialmente e pela rama.
Em harmonia com o seu ideal de felicidade domestica, o morgado restringiu ao minimo a sua convivencia, não pagando as visitas, e faltando aos convites. Apenas Martinho Xavier ás temporadas vinha de Chaves ver a filha, ou algum velho parente, que se retirava anojado da insipida existencia dos senhores do Vidago.
Martinho Xavier encarava na filha, e perguntava-lhe, a occultas do marido:
—Tu és feliz?