—É negocio de damas! Alguma victima saudosa que, do leito dos paroxismos, chama o seu algoz querido para perdoar-lhe!

Confrangia-se o animo de Martinho. O sorriso de Beatriz era um partir-se-lhe a alma, forçada a fingir-se estranha á saida do primo, e arrependida de lhe ter aconselhado a ausencia.

—Agora acredito, minhas senhoras e senhores, tornou o morgado, que é séria e respeitavel a magua do nosso Raphael! É a primeira vez que o vejo quebrado de cores e cabisbaixo! Então, primo, se a jornada é longa, cumpre comer. Coração a um lado e estomago a outro. D. João de Marana e o amado de Clarisse comiam ás horas, e o Byron ceiou optimamente no dia ou na noite em que uma das suas martyres se afogou no canal de Veneza!... Então, Beatriz, não te serves de nada? Primo Xavier, ordena a tua filha que coma... Com que então, á meia noite, primo Garção?

—É verdade...—respondeu Raphael, affectando com violento artificio, o seu natural alegre.

—E quando volta a Chaves?

—Não sei, primo.

—Não sabe?! Agora vejo que a façanha é complicada de incidentes e estranhos casos!... Pois bem, meu amigo, permitta-me fallar-lhe com sisudesa... A melancolia do seu ar faz-me desconfiar da importancia do passo. Reflexione, primo. Se é um presagio que o quebranta, escute-o. Se o pundonor o não impelle, fique. Distinga entre dever e dever. Olhe que nós pomos na balança das obrigações, muitas vezes, a nossa deshonra. Nem sempre as mulheres devem obrigar-nos a tudo, que uma errada consciencia nos aconselha.

Martinho Xavier morria de abafos, se não exclamasse:

—Que discurso tamanho para tão pequeno assumpto! Ora, primo Mesquita, não pregues aos peixes. Deixa-o ir para onde elle quizer!

—Pois eu decerto o deixo ir para onde elle quizer; mas o admoestal-o como amigo e parente entendo eu que é um dever tão meu como teu, primo Xavier. As nossas idades e sobretudo a minha experiencia...