Decorreram uns seis mezes de vigilancia assidua do fidalgo. Rondava as portas do genro até alta noite. Assalariára olheiros em Fayões para lhe segredarem os passos do morgado. Espicaçava o zelo da velha covilheira de Beatriz para a não largar de vista; quando o marido saísse a fiscalisar o grangeio das quintas.

Por este tempo deu Beatriz um menino aos carinhos doidos de seu pae. Em honra do menino, volvidos quinze dias, encheram-se as salas de mulheres, de musica, de poetas, de flores, e de alegria cerimoniosa. Esta segunda era coadjuvada pela garrafeira. A commissão de parentes, encarregados dos convites, incluira as senhoras Almeidas do Castello de Aguiar. Com muito sacrificio foram de liteira as velhinhas, amolgadas por grandes desgostos. Nicoláo, quando as viu, teve arrepios de espinha dorsal. Interrogou a commissão, a qual respondeu que os Almeidas do Valle de Aguiar eram os mais preclaros parentes de ambas as familias. Hospedaram-se estas senhoras em casa de Martinho Xavier, que acinte as levou para obstar a que palavreassem na presença de Beatriz ácerca de Margarida Froment e Ricardo de Almeida. Isto, porém, não tirou que a dama, assim que esteve a sós com ellas e o capellão adjunto, lhes desse azo á expansão das lastimas.

Disse D. Sancha que o sobrinho estava em Lisboa, desbaratando os bens e que os livros todos tinha vendido, e já havia antecipado rendas de trez annos.

Ajunctou D. Simôa que uma só esperança tinham de o resgatarem da escravidão do demonio, desfigurado na franceza, e vinha a ser o patrocinio de um santo, parente da familia, que tinha sido grande peccador como Ricardo, e depois, tornára sobre si, e acabára a vida santamente: o qual santo era S. Gil de Santarem.

Que S. Gil de Santarem era parente das senhoras D. Sancha e Simôa não ha duvida nenhuma, e vae demonstrar-se para confusão dos praguentos.

Estamos em tempo do senhor rei D. Affonso Henriques, que santa gloria haja.

Depois da milagrosa victoria de Ourique, os barões da comitiva do rei conquistador recolheram a suas terras, ganhadas a montante, e Deus sabe como. O bravo rico-homem de Galliza, Fernão Martins de Almeida, despediu-se com um aperto de guante dos seus primos e amigos Lourenço Viegas e Martim Moniz, e foi-se a matar corças e ursos nas suas tapadas do Valle de Aguiar. Fatigado de matar e comer ursos, cuidou em casar-se com a filha de D. Payo Mendo Gil, senhor das terras de Cavallaria, termo da cidade de Vizeu junto á villa de Vouzella. Preferiu o castellão residir no solar de sua mulher, e deixou as suas terras a cargo de irmãos. D’este consorcio nasceu D. Tareja Gil, a qual casou em 1184 com Ruy Paes de Valladares, do conselho d’el-rei D. Sancho I, seu mordomo-mór, e alcaide-mór do castello de Coimbra. Estes são os bem-aventurados paes de Gil Rodrigues, conhecido e venerado do leitor pio por S. Gil de Santarem, ao qual o divino Garrett denominou o Fausto portuguez.

Nada menos que este santo, inquestionavel parente das senhoras Almeidas, estava empenhado em arrancar o seu consanguineo dos braços satanicos da franceza. No entanto, alguns mezes haviam passado, depois do voto das senhoras a seu tio frei Gil, sem que o energumeno voltasse, cumprido o seu fadario. Sem embargo, ellas esperavam, e razão era que esperassem. Alguem faria o milagre, se não fosse o santo feiticeiro, antigo pactuario do demonio: que estes milagres, nos tempos correntes, bastam a fazel-os algumas lettras a vencer na mão de um usurario. A onzena tem convertido mais perdularios do que a vida mirifica de S. Gil.

O certo e naturalissimo era que Ricardo de Almeida tinha esbanjado metade dos seus haveres, e perto iria n’aquelle desperdicio. Sustentava em Lisboa a lauta vida do Porto, e redobrava de extremos com Margarida a cada requestador que lhe varava ao coração o stylete do ciume. Os galãs lisboetas eram mais arrojados e tentadores, mais ociosos e pertinazes que os do Porto. Ricardo via isto pelos seus olhos de amante desconfiado, e de são juizo para entender que o facil para elle não seria extremamente difficil para o restante da humanidade.

Este receio era injurioso a Margarida Froment: era sinceramente; mas o não menor castigo das mulheres na condição da franceza é inspirarem suspeitas aviltadoras áquelles mesmos que as estremecem, e authorisarem o galanteio de quem quer que meramente as deseja.