—Isso lá, sim; d'esse modo já eu o perfilhei; mas o peior é que ámanhã podem apparecer ahi umas entranhas menos phantasticas do que a tua maternidade de coração a reclamarem o que é seu legitimamente.

—Pois tu cuidas que elles voltam cá?! Podes ainda imaginar que elles vivem? Ha tres annos que não temos uma carta d'elles!

—Mas tambem não recebemos a certidão de obito.

—Pois sim,—redarguiu Francisca—mas, se elles vivessem, as pessoas de Hollanda, a quem tu tens pedido tantas vezes novas d'elles; não t'as dariam, ainda mesmo que lhe não soubessem os verdadeiros nomes?!

—Acho-te razão; porém, custa-me a crer que elles tenham morrido ambos. O mais certo é o que eu tantas vezes te tenho dito...

—Que Fernão Cabral tem recebido as cartas que elles te escrevem?

—Sim.

—Não creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, de Londres e de toda a parte. Se te subtrahissem umas, iam todas, homem. Cá, ninguem me tira a mim da cabeça, que elles morreram em naufragio, ou os sicarios do fidalgo os mataram lá por fóra, ou... quem sabe?... a tamanho apuro de desgraça chegariam, que se dessem a si a morte, como no seculo passado succedeu com tantos irmãos nossos.

—Póde ser—obtemperou Francisco Luiz;—mas teriam coragem de matar-se uns paes que deixavam esta creança?!... Não é possivel! A ultima carta, que recebi de Antonio, aqui está—disse elle, tirando-a do segredo de uma gaveta—é de 4 de outubro de 1694. Escreve-me de Marselha. Não se queixa de mingua de recursos. Revela uma certa seguridade de espirito, que é signal de boas avenças com as miserias da vida. Diz que está em arranjos com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, para se trasladarem com suas familias para uma colonia franceza, que, diz elle, talvez seja a de S. Domingos. Promette escrever-me quando se houver definitivamente resolvido, e depois...

—Mais nada—atalhou Francisca—Ora, no Canadá, já sabemos que elles não estão. N'outras colonias, tambem tu já sabes que ninguem os viu. Que havemos de pensar d'isto? Que se ha de suppor depois do silencio de tres annos?