Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente o encargo, tanto por lhe ser offerecido pelo doutor Abreu, como por ser o orphãosinho filho do desventurado israelita, que perdêra provavelmente a vida, quando cuidava ganhal-a com honra.
Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando a face carinhosa da creança, chorava sempre. Quanto mais o estreitava ao peito, mais o menino lhe sorria, como se com afagos quizesse mitigar as angustias desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de sua mãe. Já ella pedia ao marido que não deixasse o menino; vacillava já tambem o doutor; e, muito instado da esposa e do coração, que a si mesmo se reprehendia, deliberou resolver-se em Lisboa, segundo se lhe figurasse facil ou difficil a passagem para outro reino.
Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de Coimbra reparou na saida, e lançou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de liquidação de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu rapidamente negociára na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o inquisidor geral, de modo que já em Lisboa o promotor instaurava processo, quando o lente alli chegou.
Avisado pelo medico mais convisinho dos segredos da inquisição, Francisco Luiz deu-se pressa em sair de Lisboa com destino a Inglaterra. Negaram-lhe passaporte. Aterrado d'esta contrariedade, significativa de maiores violencias, mudou de residencia para casa segura, que lhe dispoz o hebreu de Villa Flor.
A vigilancia dos esbirros estava attenta sobre os navios hollandezes principalmente, e pouco menos sobre quaesquer outros de commercio com portos estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com ouro a piedade do piloto de uma nau portugueza destinada á India, introduziu no navio o doutor e sua mulher, considerados mercadores e proximos parentes do piloto. As arcas de suas preciosidades entraram com os passageiros; tudo que mais e menos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pequenino Braz, que dormia á hora em que elles partiram, e nem acordou ao cair-lhe nas faces as lagrimas dos seus bemfeitores.
Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz perguntou pela mãe. Ai! se ella o fosse, não perguntaria o desamparadinho por sua mãe.
Respondeu-lhe um moço de vinte annos, que os seus amigos tinham ido fóra de Lisboa, e voltariam passados alguns dias. A creança chorou em silencio, como quem conhecia que o prantear-se seria desagradecer as caricias que lhe fazia o filho de Francisco de Moraes.
Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor fôra buscar a Amsterdam.
Heitor Dias da Paz distrahia a creança de seis annos com brinquedos proprios da meninice. Parecia que um ao outro se estavam divertindo. Heitor quiz instituir-se mestre do a b c do pequeno; mas as graças infantis do discipulo encantavam-no por maneira, que era coisa de muito rir vêl-os ambos despegarem do alphabeto para se andarem correndo pela casa no jogo dos esconderêlos.
Dentro em pouco, as lembranças dos fugitivos hebreus eram apenas brevissima tristeza de saudade na memoria de Braz.