Concluo o extracto com uma amostra da prosa, e outra da poesia. Qualquer das coisas denota o entranhado fervor com que o medico portuense saía de frente contra os charlatães em favor da humanidade.

«Oh!—exclama elle—quantos e quantos medicos, lobos na condição, estou eu vendo espalhados pelos reicos da nossa monarchia, que não sabem mais que roubar e matar!... São estes ladrões e matadores publicos todos aquelles que sem o serem se fingem medicos. Oh! miseravel e desgraçada medicina! Como vejo trocados hoje os teus predicados nobilissimos! Já não és arte de curar, és atalho de morrer; já não emendas os vicios do corpo, extingues as virtudes da alma; já não és triumpho das queixas, és flagello das vidas; já não és sciencia, és ignorancia; já não és arte preclarissima, és claro e clarissimo latrocinio. Os teus methodos de curar são modos de viver; os teus aphorismos são gyrias; os teus textos são roubos; os teus remedios são mortes, e os teus brazões são sepulturas. Mas como não ha de ser assim, se são homens ignorantes e perdidos os teus professores? Fingem-se medicos os idiotas, os vagabundos, os judeus, os barbeiros, os soldados, os feiticeiros, os benzedores...»

É christãmente louvavel o affoutamento e desprezo com que elle entala os judeus entre os vagabundos e barbeiros; faz, porém, tristeza ver n'isto a ingratidão com que elle malsina a raça d'aquelle Heitor Dias da Paz, que vinte annos antes lhe estabelecêra a pensão no real collegio de S. Paulo. Entristece ainda mais que elle se não condôa do pae de sua mulher, do avô de seus sete filhos, o hebreu desterrado, que, no dizer de D. Josepha, expirara exclamando:

«Dêem-me um pouquinho de ar da minha terra, que eu não morrerei ainda!»

Desculpe-se o ingrato aos israelitas, e lembre-se a gente do muito que elle devia á inquisição, que o fizera seu familiar, sem lhe averiguar a raça, até á quarta geração, condicional indispensavel na investidura d'aquella honra, honra n'este mundo, e segurança na conquista do outro, vista a somma de indulgencias com que os papas alimpavam a consciencia d'estes esbirros do santo officio.

Desculpe-se-lhe ainda a feia culpa, em desconto da malquerença e odio com que os seus collegas leram o seguinte soneto:

«Um, dois, trez, vinte, trinta, oitenta, cem,
Mil, dez mil, vinte mil, seiscentos mil,
Milhares de milhares (São frei Gil!)
Quem poderá contar quantos cá vem?
«Tanta gente sem conhecer ninguem![24]
Más caras! ruins aspectos! fórma vil!
Nunca elles são de genio mais subtil,
Se a cara testemunha o que ellas tem.
«Ah! sim; já sei; uns mata-sanos são
D'aquelles asneiroens que por hi ha,
Que não sabem escolher o mal do bom.
«Ah! quantos burros ha! (mais de um milhão?)
Que sem saberem lêr o b a-Bá,
Curam e matam por hi sem tom nem som?»

Agora, vamos, por algum tempo, deixar Braz Luiz de Abreu com as suas prosas, com os seus poemas, e com o locupletar-se, por justo effeito da sua grande nomeada. Não cuidem que elle, á similhança dos poetas, de seu natural perdularios e desinteresseiros, tem em conta de pouco a paga das suas visitas. No tocante a estipendio de medicos, vejam como elle se declara: «Não faltam medicos na monarchia medica-lusitana, que por este modo vivam apostolicamente. Em muitas cidades, villas notaveis e povoações grandes d'este reino, é para os seus medicos muito pouco o sustento e immenso o trabalho. Na arithmetica medicinal d'esta monarchia, multiplicam-se as visitas, mas nunca se accrescentam as pagas: poucas vezes os medicos cuidam em sommar, porque nunca os doentes chegam a repartir. Trabalhar todos os dias, levantar-se a qualquer hora da noite, subir e descer escadas, ouvir queixas, soffrer impertinencias, examinar cloacas, receitar remedios, e revolver livros, isto sim; que para isso é burro: receber pagas, cobrar partidos, recolher avenças, e embolçar estipendios, isso não, que por isso é asno.»

Engenhoso modo este de avisar os seus doentes remissos na paga, não por attenciosas cartas no fim do anno, mas por tres paginas de um livro in folio, das quaes trasladei algumas linhas, em obsequio aos medicos do tempo d'agora, e censura aos doentes que não pagam.

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Os expatriados