Procurou em França o convento de sua filha, a qual duvidou reconhecer a mãe. Saiu minha mulher da casa religiosa, e assim se viram duas senhoras desamparadas em meio da França, entregues á propria deliberação. Alguem as enviou ao ministro portuguez em Paris, que lhes ouviu a historia com sentimento, e caridosamente aconselhou a minha sogra que se houvesse muito prudente com o santo officio de Portugal, em cujos archivos o nome d'ella devia estar escripto para eterna memoria. Porém, como quer que D. Maria teimasse em sair para a patria, o ministro advertiu-lhe que mudasse de nome, e se valesse das cartas que lhe deu, caso a inquisição a perseguisse, por effeito de alguma irreflexão d'ella, quanto á exigencia dos haveres de seus paes.

Proseguiu Braz Luiz de Abreu, relatando o que já é notorio ao leitor, até ao seu casamento com a filha de D. Maria Cabral, fallecida no Porto.

—Crucificada existencia foi pois a de Antonio de Sá Mourão!—murmurou muito recolhido Francisco de Abreu, e assim se esteve cogitativo por largo espaço.

—Vejo que lhe fez commoção esta funebre historia!—disse D. Josepha.

—Muitissima dôr!—murmurou o hospede, limpando o rosto coberto de lagrimas.—Pobre homem!... que destino!... que vida!... Como o mundo debaixo do céo está infamado de tamanhas desgraças!... E vale a pena o viver!... E não morrem afogadas as creancinhas ás mãos de seus paes!...

Braz de Abreu, esposa e filhos todos tinham os olhos amarados de pranto.

Francisco Luiz levantou-se, beijou as meninas mais novas, apertou a mão de D. Josepha, e despediu-se offegante de soluços.

—Que sensibilissimo homem!...—disse o medico.

XIV
O segredo horrivel

Ao outro dia, Francisco Luiz foi convidado a jantar com o seu medico. A condolencia a que o movera a infelicidade do hebreu Sá Mourão atou mais n'alma os liames de sympathia com que o Olho de Vidro o entranhára na intimidade dos seus.