Não sei se odio, se lagrimas, se tudo a um tempo, me enchia o coração! Já então não tive animo para te escrever!

Ha desgraças tamanhas que um homem parece envergonhar-se de contal-as aos seus amigos mais do intimo d'alma. Fechei-me com o segredo da minha ignominia. Deixei Bragança e fui para a Guarda, resolvido a entregar-me inertemente ao devorar silencioso da minha saudade.

Fugi dos carinhos da familia, e ferrolhei-me n'uma casa agreste e erma na quebrada da Serra da Estrella. A desesperação alli foi-me consoladora, por que a morte era inevitavel n'aquelle desamparo.

Nem ainda então pude escrever-te, meu amigo! Assim que tentava fazel-o, não sei exprimir que desalento me esvaía a cabeça. «Que vale queixar-me?! dizia eu entre mim—O que Deus não dá não m'o podem dar amigos. Deixal-os gosar, deixal-os ignorar estas obscuras angustias.»

Uma noite, faz agora onze mezes, estava eu passeiando nos quasi pardieiros da minha vivenda, quando ouvi tropel de cavalgaduras no barrocal que descia da serra ao alpestre casalejo de meus avós, os quaes alli se tinham homisiado no tempo das grandes perseguições do rei D. Manuel. Accudi á janella e ouvi uma voz de homem dizer: «É aqui.» Não sei que outras palavras se disseram: eram a voz d'ella: era Maria.

Quando dei tento de mim, e cobrei conhecimento da minha situação, tinha, nos braços a filha de Fernão Cabral, e á beira d'ella vi uma criada sua, que nos fôra medianeira, e um criado da casa de meu pae.

Contou Maria, a intercadencias anciadas, que fugira de Bragança, logo que o pae se ausentou por alguns dias, no proposito de negociar o casamento d'ella com um fidalgo de Vizeu. Como não tinha mãe, e costumava passar muitas horas reclusa no seu quarto, os domesticos não deram logo conta da fuga, nem a suspeitariam tão cedo, se a sua aia não faltasse tambem. Fugiu caminho da Guarda, e procurou-me alta noite, em casa de meus paes, que tentaram restituil-a á casa paterna, temerosos dos resultados. Como ella, porém, os assustasse ainda mais com o proposito de se matar, encaminharam-na ao meu deserto, com todo o segredo.

Imagina tu que hospedagem daria eu á filha do gentil-homem, alli, n'aquellas ruinas, onde todas as alfaias eram um catre de bancos, uma arca, dois tamboretes de páo, e alguma loiça vermelha do uso dos caseiros, pobre gente de nossa raça, que para alli ficára grangeando e usofruindo as pouquinhas e inferteis terras!... A Maria e á sua criada grave dei o meu leito; e com o meu criado me fui ao palheiro, e me agazalhei nas mantas que os caseiros nos emprestaram.

De madrugada, chegou meu pae a indagar do meu destino, e a dar-me alguns recursos para fugirmos até onde passassemos insuspeitos. O velho chorava, e eu, digo-t'o com pejo, queria que elle se alegrasse de me ver feliz!

Deferi a minha saida para o dia seguinte, sem saber que rumo tomasse. Meu pae mandava-me fugir por Hespanha e embarcar para Hollanda. Maria, esperançada na commiseração do pae e na protecção dos seus santos advogados, queria que eu e ella fossemos ajoelhar aos pés d'elle. Por mais que m'o dissesse em tom de anjo quando revela os decretos do céo, não pude sequer imaginar possivel o perdão do soberbo fidalgo.