—Pois bem: haja uma só; e seja a sua. Todas ellas dão as suas melhores corôas aos seus martyres, corôas tecidas dos mesmos espinhos, e abençoados da mesma benção; mas é preciso soffrer, soffrer sem infligir tortura, sem retalhar o peito de outra fé para lhe ir lá dentro remoer com ponta de ferro em brasa a consciencia. Braz Luiz de Abreu, respeito grandemente a sua angustia, e dou graças ao Senhor do céo e terra que lhe está vertendo balsamos no roer do cancro que lá deve ir n'essa pobre alma. Siga a sua religião, eu lhe seguirei os passos n'ella, e ajoelharei ao seu lado, sem receio de que estejamos cada um de nós orando a differentes creadores. E seus filhos? E seus filhos?—proseguiu Francisco Luiz—quer que eu vele pelo seu futuro d'elles?

—Mercês, meu amigo. Meus filhos hão de ter pão e futuro. Trabalhei; tenho ahi uns bens. Continuarei a trabalhar para augmental-os. Minhas cinco filhas hão de ser freiras; meus filhos seguirão o sacerdocio.

—Qual é o seu destino, Braz?

—Tomar ordens clericaes. Hoje mesmo vou caminho de Lisboa. E vossemecê deixa Portugal?

—Ainda não.

—Adeus, pois, até quando?... Até á eternidade?

—Ainda não. Ver-nos-hemos antes. Não se morre assim depressa... Os desgraçados são de bronze. Quer Deus que elles vivam muito para serem muito vistos como pompas do mal necessario.

XVI
O padre Braz

O famigerado author do Portugal Medico appareceu em Lisboa, cingido pelo cordão franciscano, sobraçando o manto pardo, fronte abatida, faces sulcadas, e desfeitas, a luz dos olhos amortiçada, e um amarellido de rosto accusando tanta afflicção interior, que não havia olhos enchutos que o vissem.

Por casas de bispos e mais jerarchias da egreja andava o irmão professo da ordem terceira, solicitando a sua ordenação de missa, e a concessão de recursos que o ajudassem a converter em convento o conservatorio de S. Bernardino, onde tinham sido recolhidas D. Josepha e suas filhas.