O padre levantou-se de impeto, olhou em torno de si, e disse:

—E que me dá Deus? Sim! que me dá Deus?

As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias de religioso medo.

—Pois então!—proseguiu elle com tregeitos de louco e semblante descomposto—pois então, não houve um raio de graça para esta santa mulher! não seria divina justiça que ella achasse aqui as alegrias de uma consciencia pura, de um coração sem mancha! Por fim... é certo que eu te matei minha innocente victima?

E, dizendo, acurvou-se sobre o cadaver, beijou-lhe os olhos soffregamente e cobriu-lhe a testa de lagrimas.

Era isto já uma vertigem, que terminou pelo deliquio.

Foi chamado o capellão e alguns frades visinhos de Santo Antonio. Levaram d'alli o padre para accommodarem logo os escrupulos das freiras escandalisadas. Ia sem accordo, nos braços dos antoninos. As filhas viram-no ir sem lastima. Estavam em volta da barra de sua mãe. Aquelle homem fazia-lhes terror, senão odio. Poderia ser que elle tivesse por si a côrte celestial; mas n'este mundo não havia alma que o pranteasse. Propriamente os frades incriminavam-no de pusillanime e vacillante na reforma de vida. As freiras—santo nome de Deus!—davam como perdida a alma d'aquella que morrera sem confissão; e, porque eram santas, foram em côro exorar ao Senhor que não pesasse na sua balança sem o contrapeso da misericordia, as palavras blasphemas do padre syndico.

Braz Luiz, quando cobrou sentimento, achou-se na sua pobre alcova, com dois frades á cabeceira. Escutou-os. O que elles diziam eram coisas formidaveis sobre o inferno sem fim. Stygmatisavam-lhe a fraqueza, a impenitencia, a temeridade de se aproximar da religiosa moribunda, se não ia santamente disposto a dar um exemplo de desprendimento dos affectos que havia renunciado no acto da sua sagração a Deus.

O padre pediu perdão do escandalo, e rogou que o deixassem só para examinar sua consciencia.

Deixaram-n'o os frades e foram-se ao seu convento, d'onde tinham saído em jejum.