A porta da cabana estava de par em par aberta. O sol da tarde doirava a poeira do interior. A fita luminosa, que ia inclinada em scintillas alumiar a fronte do enfermo, vinha com direcção obliqua e coada por uma abertura do colmo. Os pobres viam n'aquelle raio de pó lucido coisa mysteriosa de bonissimo agouro para a alma do doente.

Appareceu então no limiar da porta um sacerdote, que a gente d'aquellas aldeias venerava como medico do corpo e do espirito. Era o padre Braz Luiz de Abreu.

E como elle entrasse, o povo, que enchia a casinha, saíu, cuidando que o velho da ermida ia confessar-se.

A só com o sacerdote, disse o hebreu com penosa pronuncia:

—Agora é que são as despedidas, amigo. Vieste a tempo, Braz, filho adoptivo de minha mulher, que ha vinte annos me espera. Debaixo do meu travesseiro está um papel escripto de meu pulso; na arca em que te sentas, está o que eu tenho de meu. Cumprirás as minhas disposições...

—E a sua alma?...—atalhou o padre.—É tempo ainda. Salve-se, homem de bem! salve-se...

—Se sou homem de bem, estou salvo—murmurou o judeu.

—Receba com fé os sacramentos da Santa Madre Egreja.

—Ceremonias pagãs... A vida do espirito vae começar. Receba a natureza em seu seio a porção immaterial do meu ser. Descance em perpetua paz este motor interno, que recebia as lançadas da adversidade, a influencia do mal, que os homens geraram. Acabo sem remorsos, sem odios e sem esperanças. Acabo, é o que eu sei deveras. Vou desenganar-me, se errei. Agora, filho, deixa entrar a minha familia. São esses pobrinhos que saíram. Abre-lhes as portas: quero vel-os até á ultima.

Braz abriu a porta, os pobres entraram e o padre ficou entre elles.